Entre Silêncios resultou de uma encomenda do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian e teve a sua estreia a 19 de Julho de 2019, interpretado pelo dedicatário da obra, Horácio Ferreira, acompanhado pela Orquestra Gulbenkian sob direcção de Nuno Coelho.
O título é inspirado no livro homónimo de Yvette K. Centeno,
Entre Silêncios (ed. Pedra Formosa, 1997), e reflecte o carácter silencioso de uma música que explora sonoridades
sotto voce, sempre em dinâmicas compreendidas entre o
pianissimo e o
mezzoforte, sem nunca atingir um
forte na totalidade do concerto.
O solista não é colocado num plano tradicional de músico virtuoso, explorando a velocidade e gestos de grande dificuldade técnica; é antes desafiado a mergulhar numa variada paleta de timbres e cores em diálogo com a orquestra.
No decurso da obra, abandona a sua posição convencional à frente do palco, deslocando-se para a plateia e colocando-se no centro da sala, onde toca voltado tanto para o palco como para diferentes pontos da plateia, fazendo movimentos lentos de rotação circular de 360°. Por seu turno, os dois clarinetes integrantes da orquestra abandonam também os seus lugares e vão ocupando diferentes pontos no palco e no auditório. Numa fase inicial, colocando-se à esquerda e à direita do solista, e criando com este vários efeitos panorâmicos/pendulares através de motivos partilhados, assumindo-se quase como segundos solistas neste concerto. Posteriormente, abandonam também o palco e posicionam-se em diferentes pontos da plateia, contribuindo para a criação de uma percepção imersiva da obra, com o público a escutar diferentes pontos de emissão entre a orquestra, no palco, e os três vértices de um triângulo formado pelos três clarinetes na plateia.
Neste registo, ouvimos uma captação estéreo efectuada ao vivo na Sala Suggia da Casa da Música, não sendo, portanto, possível usufruir em pleno da espacialização da orquestração. Contudo, a captação dos três clarinetes foi feita com microfones colocados na campânula dos instrumentos, de modo a procurar criar uma mistura que, no decurso da peça, pudesse emular, na medida do possível, as diferentes percepções de uma escuta in loco. As localizações dos três músicos encontram-se detalhadas no diagrama ao lado.
Luís Tinoco, Kokyuu (2025)