Esta peça foi escrita e dedicada a Tiago Coimbra, resultando de uma encomenda feita pelo grande oboísta.
Trata-se de uma obra de carácter narrativo, em seis quadros, para a qual utilizei um texto de Pascal Quignard intitulado “Boutès”. É uma lenda grega que narra a história de um remador que vai na barca de Orfeu. Boutés não resiste ao canto das sereias e atira-se ao mar para ir ao encontro de uma delas. A seria alada leva o remador pelos ares, é fecundada por ele e deixa-o cair num local onde, petrificado, Boutés permanece sob a forma de um cabo rochoso.
A narrativa é difícil de pôr em música para um instrumento a solo, mas a partitura inclui um conjunto de símbolos e ferramentas musicais que nos reportam a melopeias da antiguidade, alternando ritmos simples com ritmos complexos, explorando-se também a microtonalidade do instrumento com o intuito de se convocar o canto de sereias.
O seguinte texto explica, por si, a música:
Eles remam. Eles remam... Correm sobre o mar. Um vento fresco empurra o navio. O navio aproxima-se da ilha dos pássaros com cabeça de mulher aos quais os gregos chamavam sereias...
De repente, uma voz feminina e maravilhosa eleva-se. A voz avança sobre o mar em direção aos remadores. Agora eles querem parar de remar para escutar este canto. Eles levantam-se, abandonam a vela e procuram pedras para fazer de âncora. Eles só querem chegar à ilha…
Subitamente Orfeu, que estava entre os marinheiros, ergue-se e sobe à ponte do navio. Poisa a casca de tartaruga sobre as coxas. Estica sobre a carapaça da tartaruga umas cordas de tripa que tinha trazido da Trácia. Orfeu acrescentou duas cordas às cinco que a lira tinha. Orfeu fere as cordas com um pedaço de cana e toca um contracanto rápido para afugentar o apelo das sereias.
Agora parece que a beleza da melodia dos pássaros recua no mar. E os cinquenta remadores já não ouvem com clareza este canto enfeitiçante. Eles até desviam o olhar de três pássaros espantosos que lhes mostram os seios e lhes dirigem um olhar humano. Os remadores voltam aos seus lugares e remam... Orfeu continua a tocar, os remadores remam ao ritmo da música e as velas voltam a encher-se.
Um remador, Boutés, no entanto, abandona o seu lugar, levanta-se e salta para o mar. Boutés nada, cortando as ondas, atraído pelos seios das mulheres-pássaro, e chega finalmente à praia. Boutés é então tomado pelos braços da sereia Cypris e voa com ela. Colado à sereia, ele fecunda-a. Quando chegam à Sicília, Cypris deixa-o cair...
Agora Boutés é o "Mergulhador". Petrificado, ele transformou-se no cabo Lilybeos
(traduzido do francês, in Boutès, Pascal Quignard, 2008)
António Chagas Rosa