Em maio, a secção Em Foco do mic.pt é dedicada a Eli Camargo Júnior, no âmbito do 70.º aniversário deste compositor e professor, para quem a música é um «"supercondutor" feito de som».
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Escrevi esta curta peça em 2025, em intenção do Tiago Coimbra, baseando-
-me, até certo ponto, em elementos formais do célebre quadro de Vincent van
Gogh com o mesmo título — elementos que também moldam uma outra peça
homónima para piano e eletrónica “live”. Ambas trabalham com elementos
obsessivos e circulares, e uma ambiência “noturna” que espelham não
somente a pintura de Van Gogh, como também o aspeto de turbilhão emocional
(pois que em Van Gogh a natureza atormentada é sempre uma metáfora
antropomorfizada da sua própria psique), turbilhão esse que derivou da morte
de uma pessoa de família muito querida e que originou estas duas peças, que
funcionam simultaneamente como homenagem e como catarse desse
momento dramático, inexprimível por palavras, por poéticas que fossem. Não
obstante esta conexão com o quadro de Van Gogh, nada nas peças pretende
ser uma espécie de transposição romântica simplista do objeto inspirador. Os
elementos formais, simbólicos e pictóricos do quadro transformam-se em
elementos musicais de forma abstrata, fugindo a qualquer tentativa de
descrição oitocentista da pintura. Este foi apenas o ponto de partida para
inventar certo tipo de relações de alturas, rítmicas, harmónicas ou tímbricas e,
na verdade, as peças são completamente diferentes uma da outra, não
obstante os elementos que partilham.