2025.11.19

Orquestra Sinfónica Juvenil, Christopher Bochmann (direcção), Francisco Lima Santos (violino).
Obras de Ludwig Van Beethoven, Christopher Bochmann, Max Bruch e Richard Wagner.
Quinta-feira, 23 de Outubro, às 21h30, São Luiz Teatro Municipal, Lisboa.
Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, Vasco Pearce de Azevedo (maestro).
Susana Teixeira (mezzo-soprano), João Pereira Coutinho (flauta), Luís Gomes (clarinete),
José Sá Machado (violino), Ricardo Mateus (viola), Jorge Sá Machado (violoncelo),
Inês Cavalheiro (harpa), Dana Radu (piano), Fátima Juvandes (percussão).

Obras de Vasco Pearce de Azevedo, Christopher Bochmann,
João Nascimento, Jorge Peixinho e Carlos Caires.
Sábado, 8 de Novembro, às 19h30, O’culto da Ajuda, Lisboa.
A vitalidade de Christopher Bochmann
PEDRO BOLÉO

Christopher Bochmann completou 75 anos de vida, e continua com uma actividade impressionante. Em Outubro e Novembro deste ano estrearam mais duas obras suas. No dia 23 de Outubro, num concerto da Orquestra Sinfónica Juvenil (OSJ), o compositor dirigiu a sua própria peça Vulcanalia, no Teatro São Luiz, em Lisboa. Uma peça que, segundo o compositor, «reflecte a ameaça e a violência incontrolável do fogo» e que é dedicada às vítimas dos incêndios florestais de 2025.

A interpretação da Orquestra Sinfónica Juvenil, num concerto com entrada e livre e sala quase cheia, foi suficientemente clara para dar conta das explorações sonoras orquestrais do compositor e maestro, mas a peça merece novas interpretações que possam ir mais longe na execução das propostas tímbricas e harmónicas de Christopher Bochmann. Reconhece-se um «estilo» bem claro na sua música (que vem do chamado «pós-serialismo»), embora o compositor continue a surpreender pela forma muito livre como usa a sua linguagem. Neste caso, numa peça para metais, percussões e cordas que é a terceira de uma série de composições para orquestra com títulos que se referem a festas da Roma antiga (as outras são Lupercalia e Quinquatria). Vulcanalia era uma festa romana do fim do mês de Agosto, dedicada a Vulcão, deus do fogo. Eram feitos sacrifícios a Vulcão para ajudar a apagar fogos, tentando apaziguar as suas fúrias. O uso dos metais contribui para o «calor» desta peça, não ilustrando o fogo, mas dando uma energia particular à peça, que oscila entre momentos mais violentos e uma espécie de «lamento» musical.

Orquestra Sinfónica Juvenil · © Mário Ferraz
Orquestra Sinfónica Juvenil no Teatro São Luiz em Lisboa · © Mário Ferraz

A obra será repetida em Évora no dia 22 de Novembro, na Igreja da Misericórdia, pela OSJ, uma orquestra juvenil com 51 anos de existência e com um papel importante no panorama português, com um trabalho muito significativo na formação de jovens músicos e com um repertório vasto, tocando música do século XVIII ao século XXI. No mesmo concerto, Bochmann, que trabalha há muitos anos com a OSJ, dirigiu ainda a Abertura de As criaturas de Prometheus, de Beethoven, o Concerto para violino n.º 1 de Max Bruch, peça romântica e virtuosística, com Francisco Lima Santos no papel de solista (numa interpretação muito segura, embora um pouco rígida) e ainda o Prelúdio dos Mestres Cantores, de Wagner, momento alto da noite, numa excelente interpretação da Orquestra Sinfónica Juvenil.

Em Novembro tivemos outra estreia absoluta de uma peça de Christopher Bochmann, Repudiation, tocada no O’culto da Ajuda, em Lisboa, pelo Grupo de Música Contemporânea de Lisboa. Admirável peça que parte do famoso poema do poeta galês Dylan Thomas, And death shall have no dominion. Uma peça em que a palavra tem um lugar central, mas que é muito mais do que um poema musicado: a música das três estrofes do poema tem um lado de «comentário» ou reflexão sobre o texto. Como explica o compositor, «a estrutura da obra é de três estrofes, antecedidas e separadas por refrães que apresentam a linha titular do poema de maneira progressivamente mais fragmentada; o refrão-poslúdio apresenta o mesmo material numa versão apenas instrumental, tendo a voz “desaparecido”». O poema é por vezes fragmentado e objecto de um trabalho fonético muito comum em peças com texto de Christopher Bochmann (e ele já escreveu várias, em diversas línguas, para o GMCL). O poema é, já de si, sonoramente muito rico – o compositor pega nele não apenas seguindo-lhe alguns aspectos estruturais, mas também procurando incorporar o sentido forte do poema, um repúdio do domínio da morte (daí o título da peça, Repudiation) e uma afirmação daquilo que a desafia e que permanece («Though lovers be lost love shall not»). Uma belíssima peça que todo o GMCL (violino, viola, violoncelo, harpa, percussão, flauta, clarinete e mezzo-soprano) interpretou de forma cuidada, com a boa direcção de Vasco Pearce de Azevedo.

O concerto incluiu ainda peças de compositores que foram alunos de Christopher Bochmann: as Três Pantoneças (In memoriam Alban Berg), de Vasco Pearce de Azevedo, três pequenas peças para violino e piano do compositor, criadas entre 1986 e 1987 (peças fascinantes, mas aqui com uma interpretação um pouco frágil); Círculo Azul do Tempo, de João Nascimento, interessante peça de 2022 que parte da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen («Toma-me ó noite em teus jardins suspensos/ Em teus pátios de luar e de silêncio/ Em teus adros de vento e de vazio (...)») e que foi interpretada de forma viva pelo GMCL; e Crossfade, de Carlos Caires, peça instrumental de 2009 que foi encomendada pelo GMCL (e tocada com a energia e a clareza tímbrica necessária). Para além destas, foi tocada ainda Remake, de Jorge Peixinho, uma bela obra de 1985 do fundador do GMCL, para flauta, piano, violoncelo e harpa.

O GMCL tocou ainda, como prenda de aniversário para Christopher Bochmann, que estava presente na sala, um arranjo dos Parabéns a você, realizado por Vasco Pearce de Azevedo para o Grupo a partir da versão de Stravinsky. Instalando um ambiente descontraído para conversas cruzadas no final do concerto. Com direito a bolo e tudo!

Dois concertos a mostrar a vitalidade, a frescura de ideias e a capacidade de trabalho deste compositor, professor e maestro de 75 anos, com uma obra vasta, coerente e surpreendente, continuando a dar cartas no domínio da composição.

O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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