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2026.03.05

Fifty-Fifty — recital de viola d’arco de Trevor McTait;
obras de Igor C. Silva, Eduardo Luís Patriarca, Miguel Azguime,
Ângela da Ponte, Hugo Vasco Reis, Daniel Moreira;
Trevor McTait (viola d’arco);
sábado, 14 de Fevereiro, às 19h00, O’culto da Ajuda, Lisboa.
Uma viola d’arco longe dos clichés
PEDRO BOLÉO
Trevor McTait · © André Rodrigues
Trevor McTait · © André Rodrigues

No dia 14 de Fevereiro, Trevor McTait apresentou no O’culto da Ajuda, em Lisboa, um espectáculo a solo de viola d’arco inteiramente preenchido com obras de compositores portugueses contemporâneos. Um recital que antecipa a edição em 2026 de um disco para viola solo e electrónica com obras de compositores portugueses.

O concerto começou com Terminus, de Igor C. Silva, peça de 2009 premiada no 2.º Concurso de Composição Casa da Música/ESMAE. Uma peça simples e bem conseguida, baseada em jogos de reverberação que, com auxílio da electrónica em tempo real, deixam soar o som da viola d’arco para criar um ambiente expectante. Na composição abundam glissandos e, aqui e ali, gestos mais percutivos, numa caminhada solitária que se podia imaginar num mundo subterrâneo. Seguiu-se a peça Un Souffle, Le Rêve..., de Eduardo Luís Patriarca, com motivos que se vão estendendo a partir de pequenas repetições, com várias passagens de sons flautados ou explorando os harmónicos do instrumento, mas também com zonas mais «à corda», sem nunca perder o lado fragmentário e interrogativo. Melancólica viola d’arco? Talvez sim, mas nesta peça de 2016 ela é sobretudo reticente, sonhadora, como se andasse numa pesquisa interior, existencial.

Seguiu-se Dedans-Dehors, peça de 2017 de Miguel Azguime para viola e electrónica. Peça mais longa que as anteriores, que enceta uma exploração sonora que entra pelo ruído adentro, com gestos decididos e pujantes da viola d’arco, que aqui desconstrói todos os clichés habituais que associamos ao instrumento (doçura, suavidade). A electrónica foi manipulada ao vivo pelo próprio Miguel Azguime, numa interacção com o instrumento que o transporta para outra dimensão: mais do que um solo, é de uma composição camerística que se trata, um verdadeiro duo com electrónica, alargando as possibilidades sonoras do instrumento até ao limite, frequentemente em gestos rápidos e quase violentos nalgumas passagens. Transfigurando, sempre à beira do ruído, o som «por dentro e por fora», como o título sugere.

Já tinham sido três belas interpretações de peças muito diferentes entre si, mas veio ainda uma miniatura de Ângela da Ponte, um Divertimento (escrito originalmente para violino em 2017) em que as cordas são tocadas sem arco (só com as mãos directamente nas cordas ou no corpo do instrumento), num jogo delicioso que apetece continuar a ouvir. Talvez, um dia, Ângela da Ponte possa escrever mais divertimentos-miniaturas que possam formar uma série? Divertimento é uma peça verdadeiramente divertida (para quem escuta) e onde Trevor McTait mostrou bem, com todo o rigor, o prazer de tocar. Nada de melancolia nem doçura, aqui foi tudo feito da alegria do jogo da música.

Seguiu-se Imago, peça de Hugo Vasco Reis (que, aliás, tem colaborado de muito perto com o violetista em projectos experimentais para viola d’arco e electrónica) e que aqui cruza delicados sons da viola com sons pré-gravados e transformados de uma turbina eólica e de uma tapeçaria... Exploração sonora no mais pequeno detalhe, delicada, mas não adocicada, de maneira nenhuma, pois é de uma materialidade sensual e quase excessiva (mesmo nos sons «exteriores» da electrónica) que é feita esta peça.

A terminar, veio Noctis Lumina, de Daniel Moreira, talvez a peça mais evidentemente idiomática, explorando possibilidades conhecidas da viola d’arco e do seu timbre, mas levando-as para novos lugares.

Trevor McTait · © André Rodrigues
Trevor McTait · © André Rodrigues

Intitulado Fifty-Fifty, o projecto de disco que este recital antecipou nasce de uma reflexão artística e pessoal, por onde passa, segundo o intérprete, «a ideia de dualidade [...]: a fusão entre a viola e a eletrónica, a dupla nacionalidade de Trevor McTait (Portugal/Reino Unido) e o percurso de vida que marca este momento — 50 anos de idade, repartidos entre 25 anos de formação e actividade no Reino Unido e 25 anos de carreira em Portugal, como músico do Remix Ensemble Casa da Música».

Um contributo importante para valorizar o repertório contemporâneo da viola d’arco (vale a pena referir que outro intérprete da viola que tem feito um trabalho no mesmo sentido é João Pedro Delgado). E, enfim, um excelente recital de um grande intérprete comprometido com a criação actual. Com obras bem perto do instrumento, mas longe dos clichés.

O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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