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O Festival Música Viva vai na sua 32.ª edição — é obra! Este encontro dedicado à criação musical da actualidade, iniciativa da Miso Music Portugal, realiza-se este ano no Teatro São Luiz, em Lisboa, sob o mote «Insurgência», assumindo-se, de novo, como espaço de liberdade, pensamento crítico e transformação e afirmando a arte musical dos nossos tempos como uma prática que «não apenas reflecte o mundo, mas age sobre ele», como disse Miguel Azguime nas breves palavras introdutórias do concerto inaugural do Festival.
Novíssima música e um Messiaen até aos céus
 João Dias e Shahd Wadi
© EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
O primeiro concerto, na noite de dia 28 de Abril, terça-feira, foi ainda precedido de um momento artístico com a leitura de um poema por Shahd Wadi, apresentada na folha de sala como «poeta palestiniana, entre outras possibilidades» (ela é também tradutora, investigadora e empenhada em movimentos pela libertação da Palestina). Leitura fortíssima de um poema da sua autoria, bem de acordo com o mote deste festival: «Insurgência». A escritora leu uma poesia intitulada «Chuva de Jasmim», que se assume como mensageira dessa «doença incurável» que também o povo palestiniano porta — a esperança. Uma bela abertura para o concerto do Sond’Ar-te Electric Ensemble que aí vinha, com três estreias de obras de jovens compositores portugueses.
 Guillaume Bourgogne e Sond’Ar-te Electric Ensemble © EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
Especialmente interessante foi a primeira peça, pela pele, novíssima composição de Pedro Berardinelli (encomenda do Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu e da Miso Music), em que a presença dum frame drum na percussão, combinada com o título da obra, podia enganar-nos. É que o lugar de destaque vai, desde o início, não para a pele da percussão, mas para a flauta baixo que Sílvia Cancela tocou admiravelmente. Será a flauta a articular o fundamental do discurso que se torna colectivo e que parte de sons da voz humana — falada e cantada, antes mesmo da flauta entrar em acção. Mais tarde, os outros músicos são convidados a cantar ao mesmo tempo que tocam.
Além da percussão (João Dias) e da já referida flauta baixo de Sílvia Cancela, surgem também em pela pele o violoncelo (Filipe Quaresma), o clarinete baixo (Nuno Pinto) e o piano (João Casimiro Almeida), num jogo tímbrico e rítmico bem vivaz, a que se juntará a certa altura... o público!, que é convidado a cantar uma nota pedal durante algum tempo em pianissimo. Na direcção, Guillaume Bourgogne fez um excelente trabalho, clarificando (também para nós, no público) os movimentos da música sensível de Berardinelli.
Seguiu-se a peça de Carlos Lopes, in Pulses, para violino, violoncelo, clarinete, flauta, piano e percussão (encomenda também da Miso Music), uma obra que parece querer passar sonoramente os limites do ensemble em questão e que, em certas passagens, o consegue, soando quase como uma orquestra de câmara. A certa altura, citações bem reconhecíveis (Schubert, por exemplo) vêm perturbar a escuta (como um ouvinte que se deleita com música inaudita e subitamente diz: «mas eu conheço isto!»). Peça livre e bem humorada, com um dinâmico entrelaçamento entre instrumentos, entre imitações de gestos, accelerandos e descobertas de texturas comuns, em que o resultado é mais do que a soma dos instrumentos.
E veio ainda Mafish Mushkila, encomenda do Sond’Ar-te Electric Ensemble a José Carlos Sousa. Proposta bem diferente das anteriores, numa música que vai trabalhar temas melódicos, apresentados pelo violoncelo ou pelo violino, para depois os desenvolver. Aparentemente convencional na estrutura, Mafish Mushkila (que significa em egípcio algo como «não há problema») surpreende pelos jogos de destemperamento das escalas onde cantam belas melodias (talvez melancólicas), evocando simbolicamente uma serenidade desejada perante um mundo inquietante.
Peças propondo novas sensibilidades, transbordamentos sonoros ou serenidades desejadas contra um mundo em guerra: não serão também formas de ser «insurgente» nos nossos tempos?
O primeiro concerto do Música Viva teve ainda uma segunda parte, em que o Sond’Ar-te tocou de forma admirável uma peça marcante do século XX, o Quarteto para o Fim do Tempo de Olivier Messiaen. Um bravo especial ao solo de clarinete soberbo de Nuno Pinto, nesta obra marcante pela espantosa música e pelo contexto tremendo em que foi escrita e tocada pela primeira vez, em 1941, num campo de prisioneiros de guerra nazi, com três músicos também eles prisioneiros ao lado de Messiaen. Uma peça emocionante e, a seu modo, musicalmente radical, na forma como leva longe (até ao Céu, dir-se-ia, na sua religiosidade explícita) uma esperança e uma confiança desmedida na beleza da vida — pássaros incluídos — e no divino.
Peixinho Político e variações de um Povo Unido

No dia seguinte, o Festival teve um concerto às 18h no Jardim de Inverno (sala Bernardo Sassetti) com o Ensemble mpmp a tocar «Peixinho Político», um conjunto de três obras tocadas de seguida, num gesto que fez todo o sentido, embora juntasse três peças bem distintas nas suas atitudes estéticas: CDE, de 1970, para clarinete, violino, violoncelo e piano (o título faz referência à Comissão Democrática Eleitoral que tentou uma campanha por eleições livres que o regime fascista mais uma vez impediu), Elegia a Amílcar Cabral (peça electrónica construída com 12 sons sinusoidais, duma desarmante simplicidade, quase estática, composta na sequência do assassinato do dirigente do PAIGC em 1973) e uma peça escrita depois do 25 de Abril, A Aurora do Socialismo (Madrigale Capriccioso), para ensemble e electrónica, com uma frescura que sobreviveu ao tempo, pelo menos a avaliar pela interpretação viva do Ensemble mpmp na tarde de dia 29 de Abril. Este concerto foi precedido de poemas de Gisela Casimiro lidos pela própria de uma forma delicada mas muito empenhada, solicitando do público uma reflexão sobre a liberdade, o racismo e as novas prisões que nos cercam nestes tempos difíceis. O mpmp fez um trabalho cuidado e rigoroso, a que só faltou um pouco mais de verve na peça CDE, belíssima peça para ensemble de um dos mais marcantes compositores portugueses do século XX.
 José Pedro Ribeiro
© EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
Na noite de 29 foi a vez de José Pedro Ribeiro fazer um monumental recital, começando por tocar com intensa energia Prelúdio, Canção e Dança de Fernando Lopes-Graça, para depois se lançar na loucura das variações de Frederic Rzewski sobre o famoso tema «El Pueblo Unido Jamás Será Vencido» (canção chilena original de Sergio Ortega e Quilapaiún que foi um hino do governo socialista de Allende e da luta do povo chileno pela liberdade, violentamente reprimida depois do golpe de Pinochet e da sua repressão assassina). Uma peça que é muito mais do que uma passagem por 36 «estados de alma»: The People United Will Never Be Defeated! possui, sim, um desenrolar obsessivo (embora estruturalemente rigoroso no seu encadeamento de 36 variações — que vêm dos 36 compassos da canção — em seis grupos de seis variações) que pode ser visto, para além do seu jogo intrinsecamente musical (quase louco na variedade, no virtuosismo e nos «desvios» que propõe), como uma homenagem às vítimas da trágica derrota política chilena às mãos de Pinochet, um canto elegíaco às lutas sociais na América Latina e talvez também como uma reflexão sonora sobre a história dos combates pela liberdade em todo mundo. Obra transbordante, de raiva e esperança, sobre a qual José Pedro Ribeiro fez um trabalho extraordinário, pondo em marcha esta música tão excessiva como tocante.
(Quase) Nada Contra e a lendária Drumming
 nada contra duo — Mrika Sefa e Francisco Cipriano
© EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
No dia 30, mais dois estimulantes concertos: o do Duo Nada Contra, de Mrika Sefa e Francisco Cipriano, que tem uma vivacidade performativa que pode inspirar novas formas de fazer (e escutar, e viver) a música dos nossos tempos. Para eles «a insurgência reside em afirmar a intenção, a primazia do corpo e do trabalho, e estar juntos como um coletivo contra as pressões da velocidade, da uniformidade e do consumo passivo.» Fizeram peças de carácter muito experimental, nalguns casos in progress (eles trabalham de perto com compositoras e compositores), de Marta Domingues, João Quinteiro, Anda Kryeziu (que subiu ao palco e participou também na interpretação da sua obra) e Valerio Sannicandro (Esercizi di morte foi talvez a mais clara formalmente de todo o conjunto). No entanto, sentimos falta, na escolha das obras apresentadas, de uma peça que furasse mais (no som e na fúria). Sentimos que algo ficou aquém no gesto político, e pareceu-nos que foi uma questão de repertório: a falta de uma peça-grito (ou de silêncio, seria?) que soltasse a performance dos seus ambientes sonoros às vezes «paisagísticos», ou da ocupação complexa com instrumentos tão diversos (piano, teclado MIDI, múltiplas percussões, electrónica ou instrumentos electronicamente transformados).
 Grupo de Percussão da OCP com Pedro Carneiro + convidados
© EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
À noite, mais um concerto combinando uma peça em estreia com uma obra quase do cânone: foram a peça de Solange Azevedo e a interpretação de Drumming de Steve Reich, peça emblemática do minimalismo escrita em 1971. No Mesmo Espaço, de Solange Azevedo é interessante na sua procura de pensar a diversidade a partir da questão da luz e da cor, e desenvolve um trabalho rico sobre as marimbas (postas em vibração de diferentes modos, não só com baquetas) mas desiludiu-nos um pouco na escrita vocal (em que o texto sobre a luz e a diversidade humana de percepção das cores raramente foi... perceptível). E depois o Drumming, esse imenso jogo colectivo de desafasamentos rítmicos que foi tocado por Pedro Carneiro (percussão e também na direcção), os percussionistas Agostinho Sequeira, Marco Aleixo, João Braga Simões, Rafael Picamilho, Bárbara Ribeiro, Paulo Amendoeira, Madalena Rato e João Carlos Pacheco, o flautista Rui Borges Maia, a soprano Maria Grilo e a mezzo-soprano Markéta Chumová. Os intépretes do Grupo de Percussão da Orquestra de Câmara Portuguesa transmitiram tão bem a proposta musical de Steve Reich que nos apetecia participar também naquele jogo em que parece que se pode entrar em qualquer ponto. E transmitiram também — com rigor, é certo — o imenso prazer colectivo de fazer música, que é contagiante nesta peça radical e quase «lendária» de Reich. Lendária, mas afinal pode estar bem viva, como este Festival, lugar onde se encontram a estimulante composição contemporânea, a viva interpretação de música de hoje, e muitos ouvidos curiosos.
A não perder: os três últimos concertos do Música Viva, dias 2 e 3 de Maio, sempre no Teatro São Luiz: com o Miso String Quartet, a Sinfonietta de Braga e a Orquestra Metropolitana de Lisboa.
O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
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