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Em busca do potencial electroacústico. Entre o frio do Japão e de Portugal
JAKUB SZCZYPA
2010.12.18

No dia 4 de Dezembro de 2010 o Sond’Ar-te Electric Ensemble, o grupo residente da Câmara Municipal de Cascais, deu um concerto especial no Centro Cultural de Cascais. O evento celebrou a criação musical no contexto de duas importantes efemérides para Portugal neste ano de 2010 – o Centenário da República e o intercâmbio cultural e musical entre Portugal e o Japão nos 150 anos do Tratado de Amizade, Paz e Comércio entre os dois países.

Um polaco em Portugal?

“Ah, você fala português?” – pergunta x. “Sim, falo” – respondo um bocado intimidado. “Que esquisito, então muitos polacos falam a nossa língua?” – continua x. “Há alguns...” – replico. “Então, por que é que você escolheu o nosso país?” – insiste x. Para esclarecer todas as dúvidas e evitar os mal-entendidos, vou fazer uma curta auto-apresentação: sou um musicólogo da origem polaca a trabalhar no âmbito da música contemporânea em Portugal. Por que motivos? Há vários, mas não os convém mencionar agora.

Um diabo pintado...

Escrever uma crítica (e ainda por cima em português) não é uma tarefa assim tão fácil, especialmente quando se trata de...música contemporânea. Por outro lado, se calhar o diabo não é tão feio quanto se pinta. A dificuldade e ao mesmo tempo a vantagem de escrever críticas acerca da música contemporânea reside no facto de que esta é “nova” e imprevista e portanto requer uma certa abertura e criatividade da parte do crítico. “Em princípio, a música contemporânea é diferente de todas as outras”, costumava dizer um dos meu professores universitários, portanto tomei a decisão de assumir o desafio e aqui está o resultado...

A busca...

No dia 4 de Dezembro de 2010 o Sond’Ar-te Electric Ensemble, o grupo residente da Câmara Municipal de Cascais, deu um concerto especial no Centro Cultural de Cascais. O evento celebrou a criação musical no contexto de duas importantes efemérides para Portugal neste ano de 2010 – o Centenário da República e o intercâmbio cultural e musical entre Portugal e o Japão nos 150 anos do Tratado de Amizade, Paz e Comércio entre os dois países.

Antes de eu continuar deixem-me ainda fazer uma declaração curta e muito pessoal em relação às condições meteorológicas em Portugal. Mesmo que eu seja da Polónia, onde os Invernos costumam ser extremos e violentos, nunca experimentei tanto frio dentro dos prédios como cá em Portugal (o que aconteceu à ideia dos aquecimentos centrais?). O concerto teve lugar no Centro Cultural de Cascais que se encontra instalado na "Casa Cor-de-Rosa", antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade. Apesar das paredes espessas do prédio o frio implacável entrou na sala do concerto...

O evento começou com uma introdução breve mas substancial feita por Miguel Azguime, o omnipresente co-fundador da Miso Music Portugal e do Sond’Ar-te Electric Ensemble. “A música contemporânea em Portugal foi sempre menosprezada pelos governos e o corte anunciado para o orçamento da cultura do próximo ano reflecte este facto com muita clareza”, disse o compositor português.

Felizmente, este texto não é de orientação política, então por enquanto abster-me-ei de fazer referências ao delicado assunto. Vou passar directamente para a música…

A primeira parte do concerto foi marcada pelos 100 anos da criatividade musical em Portugal e começou com o Trio para violino, violoncelo e piano de Luís de Freitas Branco. O Trio, composto em 1910, é uma obra juvenil e consta dum movimento amplo, uma espécie de fantasia, que foi intencionalmente escrita como programática e descritiva. Visto que a obra provém do primeiro período da evolução artística do compositor é possível distinguir nela três inspirações claramente audíveis: o “Impressionismo” de Claude Debussy, o estilo romântico de César Franck e a música tradicional. O Trio, embora pareça “desigual qualitativamente ou irregular no plano estilístico” é “atraente na fogosidade de alguns trechos e na envolvência lírica de outros.” Não obstante, nesta peça particular, as capacidades performativas dos membros do Sond’Ar-te Electric Ensemble davam a impressão de serem desanimadas pelas condições meteorológicas do Outono – os músicos, apesar de terem todas as competências técnicas, não conseguiram encontrar um balanço adequado entre o lírico, o impetuoso e o romântico.

O Trio de Luís de Freitas Branco foi seguido pelo “Cadavre Exsquis” português, uma obra colectiva composta para o 25º aniversário da Miso Music Portugal. Cadáver esquisito é um jogo colectivo surrealista de criar histórias em que cada participante adiciona a sua parte à história em sequência, baseando-se na última frase. Segundo Nicolas Calas os fragmentos poéticos eram supostos manifestar “a realidade inconsciente na personalidade dum grupo”. O “Cadavre Exquis” da Miso Music é uma colecção original de 100 novas miniaturas musicais, cada delas de acerca 1 minuto de duração. As miniaturas foram escritas por compositores portugueses e estrangeiros de várias gerações, com os quais a Miso Music Portugal teve o privilégio de colaborar ao longo dos seus 25 anos de actividade. Neste concerto foram colocadas em perspectiva 16 miniaturas, escolhidas e interpretadas numa ordenação aleatória pelo Sond’Ar-te Electric Ensemble dirigido por Pedro Neves. A própria ideia, apesar da sua originalidade, na minha opinião podia ter um êxito algo mais esquisito. Algumas miniaturas, como “Just a Minute” de Paula Azguime ou “One Minute to Go” de António Pinho Vargas eram um piscar de olhos irónico para o público, enquanto que as outras pareciam movimentos incompletos, introduções ou esboços composicionais. Não há dúvidas que o projecto tem o potencial de justapor linguagens musicais, ideias e abordagens estilísticas diferentes. Porém, não seria mais excitante conseguir encontrar um fio invisível juntando todas as miniaturas como no Cadavre Exquis original?

A primeira parte acabou, os meus pés aqueceram um bocado. Chegou o tempo para fazer um intervalo curto, portanto, sintam-se à vontade para tomar um café ou chá com leite (devido ao frio, obviamente).

A segunda parte do concerto dedicada à música japonesa começou com uma peça de Ai Kamachi. Na sua nota biográfica, a compositora fala sobre os seus diversos interesses, que incluem música electroacústica, obras sinfónicas, bandas sonoras e música pop. Todas estas inspirações eclécticas encontram-se na peça da compositora sob o título curioso de “Fairy Circle” (“O Círculo das Fadas”). O círculo das fadas é um fenómeno criado por cogumelos no chão duma floresta ou duma relva, quando os esporos de cogumelos se espalham em todas as direcções e como consequência aparecem os círculos. “Através da minha música queria apresentar o processo da propagação dos esporos, quando voam e pousam na terra para criar um círculo (ou círculos) dos sons-esporos. As instalações de Andy Goldsworthy, nas quais ele dá vida aos círculos maravilhosos feitos de vários materiais naturais, inspiraram fortemente a minha peça”, diz Ai Kamachi. A sua peça é construída a partir de micro-motivos de certa fragilidade, que criam um diálogo entre a parte acústica e electrónica baseado numa sucessão de repetições e ecos. Este processo contínuo conduz a uma progressiva condensação de textura até ao aparecimento das pulsações que evocam a música de Steve Reich. “Os círculos dos sons-esporos são submetidos às transformações diferentes. Com o apoio da programação Max / MSP tentei elaborar uma mistura complexa dos sons criada, por um lado, pela actuação ao vivo e por outro, reestruturação electrónica em tempo real. (...). Portanto, os círculos originais dos sons criados pelos músicos transformam-se numa variedade de círculos imaginários...”

A segunda peça da origem japonesa, “Scape” de Osamu Kadowaki, em oposição à primeira “virada para a natureza”, é uma reflexão subjectiva sobre as sociedades informatizadas e foi criada especialmente para o Sond’Ar-te Electric Ensemble. Tal como Ai Kamachi o compositor também se inspirou em várias fontes da música actual. A parte electrónica e acústica permanecem em relação de “pergunta e resposta” – segundo o compositor os sons electrónicos foram obtidos a partir das partes acústicas e, como efeito, constituem a sua distorção inquietante. Ocasionalmente é possível ouvir passos que evocam as estruturas repetitivas de Louis Andriessen. A parte central da peça pertence ao solo do clarinete ligeiramente deformado pela electrónica, que durante o concerto foi brilhantemente executado por Nuno Pinto. Não obstante, continuo a perguntar-me a mim próprio sobre as inclinações ideológicas da peça mencionadas na nota do compositor: será que a parte electrónica “distorcida” simboliza a tecnologia moderna e a acústica relaciona-se ao componente humano? Será que a intenção do compositor é tão directa?

Finalmente, passemos para a última peça do concerto, “Avant” de José Luís Ferreira, que devido ao seu título também se poderia encontrar no início do programa. A peça é a primeira versão do trabalho em progresso (work in progress) do compositor (avant = à frente, adiante). “[A minha obra] funciona como a prova do conceito (proof of concept) – é possível fazer a electrónica em tempo-real soar antes (avant) dos instrumentos, ou pelo menos, do som dos instrumentos que completam (ou complementam) as figuras musicais”, explica José Luís Ferreira. Na peça, um enigma matemático, a parte electrónica com frequência antecipa os instrumentos, aparecendo literalmente na sua frente. Estes dois mundos – electrónico e acústico – permanecem numa relação de proximidade, criando uma tensão explicita de interrupções abruptas, viragens e acelerações. Será que o primeiro deseja controlar o outro e não consegue? A peça de José Luís Ferreira faz-me lembrar da música sur-convencional do Paweł Szymański. O compositor polaco “brinca” constantemente com a tradição dos vários estilos da história da música (Bach, Mozart, Chopin ou Bartók), criando ilusões e alusões matematicamente construídas à música do passado – tudo parece conhecido e em ordem mas ao mesmo tempo há alguma discordância, portanto apetece dizer: “estranho, eu já ouvi esse passo”.

O concerto acabou, o público aplaudiu fervorosamente, apresentado a sua satisfação aos músicos (a propósito, os meus pés finalmente ficaram quentes ou já não os sentia?). Anatol France disse: “(...) o bom crítico é aquele que conta as aventuras da própria alma entre as obras-primas." Portanto, quanto às minhas sensações modestas aqui está o meu resumo subjectivo...

A meu ver o concerto do Sond’Ar-te Electric Ensemble tinha um potencial, que não foi inteiramente explorado. Por um lado desejava-se mais coerência no nível da interpretação, como no caso do Trio de Luís de Freitas Branco, por outro, as novas peças portuguesas e japonesas, mesmo que interpretadas com uma grande precisão, constituíram ideias interessantes, contudo sem um desenvolvimento preciso. Faltava nelas algum nervo dramatúrgico, alguma linearidade e lógica em sucessão das ideias composicionais. Será que por causa do ecletismo que hoje em dia domina a arte, já se perdeu a capacidade de criar narrativas envolventes ou transmitir determinadas ideias? Não obstante, tal como mencionei em cima, o público deixou a Casa Cor-de-Rosa bem satisfeito. Portanto, vou por enquanto deixar as minhas dúvidas sem resposta e esperar pelo desenvolvimento do potencial durante o próximo concerto do Sond’Ar-te Electric Ensemble.

 

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