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Editorial
 
Espaço Crítica para a Nova Música é uma iniciativa da Miso Music Portugal e do Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa. É um fórum para crítica livre e aberta, em que podem ser confrontadas de uma forma lata e profunda, opiniões firmes e gostos diferentes sobre as novas tendências na música. É um lugar dedicado, por um lado, a estéticas e expressões múltiplas, fenómenos da criação, narrativas musicais, performances / concertos / espectáculos da música de arte actual, por outro, à sua relação com outras áreas artísticas, tais como artes visuais, dança, arquitectura, literatura, novas tecnologias, psicologia e sociologia. O nosso objectivo é abrir uma discussão viva e reintegrar a música contemporânea com outras formas da arte e disciplinas da actividade humana.

Na nossa opinião a música tem uma força social poderosa. Um crítico, mesmo que com frequência exprima as suas opiniões subjectivas, é um mediador entre o compositor, o músico e o público. Os textos críticos que disponibilizamos pretendem não só analisar e mencionar os elementos técnicos e os aspectos expressivos da composição e execução, mas também introduzir o seu possível impacto no público. Vamos publicar regularmente descrições criativas e análises das obras do século XX e contemporâneas e também crtíticas de concertos e festivais, com o foco centrado na criação portuguesa.

Hoje em dia a música não tem fronteiras e existem dezenas de fenómenos interessantes a ser descritos e discutidos.

Uma reflexão que se segue à ideia de Paula Azguime de voltar a criar um espaço dedicado à crítica no âmbito musical e cultural

ÁLVARO GARCÍA DE ZÚÑIGA

A “comunicação” desde que foi aplicada ao sector cultural, desencadeou uma enorme quantidade de mudanças no que diz respeito à percepção da produção cultural contemporânea. Mudanças às quais as novas tecnologias da informação – com os fluxos massivos de “data” que estas comportam – estão absolutamente ligadas.

Se, para começar, a “comunicação cultural” modificou os sistemas de percepção dos factos culturais, inclusivamente das próprias obras, também provocou modificações muito profundas em tudo aquilo que toca à produção cultural.

Através da comunicação, e do facto comunicacional, hoje é muto difícil “ler” o papel assumido por aqueles que – devido às suas funções – são a priori os evidentes defensores do facto e da criação culturais: os intelectuais e os artistas – ou seja aqueles para quem um dos princípios de base dos seus trabalhos é a produção de ideias ou objectos que se inscrevem no tempo –, já que estes ficaram apanhados nas engrenagens duma maquinaria promocional sofisticada e que se encontra, permanentemente, na origem de estranhos e complicados desvios dos seus objectivos primordiais.

Efectivamente, na maior parte das actividades relacionadas com a comunicação cultural, o “objecto a comunicar” não é o “produto”, mas sim a personalidade daqueles que estão implicados na origem do facto. Porque “o jogo da comunicação” exige-nos deixar de lado o conteúdo, já que este aparece como uma coisa demasiado incómoda, e se a comunicação não se interessa pelo evento cultural em si – a obra, etc. –, é porque fazê-lo implica um exercício de crítica.

E a crítica, que supõe uma arquitectura de opiniões e discursos sobre um objecto ou ideia, e portanto, tende a aproximar-se do domínio da legitimação – mesmo quando se encontra em total desacordo com os princípios que a obra ou a ideia trata – é um obstáculo maior ao “fluxo” da comunicação; porque o fluxo, que para funcionar utiliza recursos próximos dos intsrumentos publicitários, deve fazê-lo através do encontro permanente de consenso. Assim, o spot comunicacional deve ter como alvo principalmente o facto de “agradar ao público” – exactamente como a publicidade, aliás – e para consegui-lo deve fazê-lo de um modo asséptico, permitindo que o “objecto a comunicar” possa ser lido (ou entendido, ou percebido) desde a maior quantidade de pontos de vista possíveis, sem chocar com as sensibilidades de uns e outros.

A transferência da imagem para a personalidade do criador, artista, etc., como substituto da produção – ou seja da obra, ou do evento – deve-se à simplicidade de uma lógica linear que visa um efeito massivo: se o autor é inteligente, brilhante, ver mesmo genial, o seu “produto” (romance, obra teatral, plástica, musical, filme ou o que quer que seja), o será também.

No processo comunicacional, então, a obra – que está sempre aberta a uma multiplicidade de interpretações, dando lugar a uma diversidade de pontos de vista e de opiniões por vezes até contraditórias – incomoda, perturbando o mecanismo, desviando-o do “aspecto central” do facto comunicacional, que é a sua mediatização.

A obra contém em si as interpretações e pode sempre significar outra coisa diferente dos discursos que se podem fazer sobre ela – e cada interpretação é, neste sentido um discurso de intenção que a faz viver, sem por isso pôr de parte a possibilidade de outras e infinitas interpretações, discursos e intenções. Este fenómeno é propriamente um efeito da função crítica.

Nós vivemos num tempo no qual a promoção transformou-se numa questão maior, inevitável e necessária em todos os elos da cadeia da produção cultural, ao ponto que – relegando a função crítica ao segundo plano – a comunicação cultural pode vir a reduzir a cultura ao seu aspecto menos interessante, desviando-a de toda participação activa pela parte do receptor.