2020.12.15 · CCB, Lisboa · «Utopia · Miguel Azguime e Beethoven»
Pedro Neves (direcção musical) · Solistas do Sond'Ar-te Electric Ensemble:
Nuno Pinto (clarinete), Elsa Silva (piano), Filipe Quaresma (violoncelo)
Camerata Alma Mater
Uma viagem donde não se sai ileso
PEDRO BOLÉO

Nuno Pinto, Esla Silva, Pedro Neves, Filipe QuaresmaExiste um hábito instituído das programações de concertos de música erudita que podemos designar de “alinhamento sanduíche”: trata-se do costume de entalar uma obra mais recente, e supostamente mais “difícil”, entre duas obras clássicas ou românticas. Procura-se assim descansar os espectadores/ ouvintes. Eles terão a garantia de começar calmamente, com uma pequena obra reconhecível, de preferência bem tonal, e sair descansados, com uma sinfonia com princípio, meio e fim.

Lembramos este “alinhamento sanduíche” (hábito ainda hoje dominante) a propósito do concerto do passado dia 15 de Dezembro, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, porque ali aconteceu precisamente o contrário: foi uma obra de Beethoven que ficou no meio de um alinhamento que propunha duas obras bem contemporâneas de Miguel Azguime.

O programa, em homenagem a Beethoven, foi elaborado pelo próprio compositor, e incluía uma encomenda do CCB de uma nova obra. Azguime chamou a este concerto, no seu conjunto, Utopia. Um nome que o compositor justificou na apresentação que fez do concerto, de pé, com um microfone na mão, pela necessidade de pensarmos de facto noutros mundos perfeitos possíveis e desejados, na esteira da obra Utopia, de Thomas Morus. Uma palavra que parece bem menos na moda do que a sua prima “distopia”, hoje muito ouvida e repetida, num tempo em que parece complicado imaginar futuros outros que não os do autoritarismo e da destruição planetária.

Que Miguel Azguime tenha ido buscar essa palavra, não parece tão casual como poderíamos pensar. Talvez por causa da ideia de explorar novos territórios para a música e para a arte, inspirados em Beethoven e na sua imensa liberdade criativa, nas suas propostas exigentes para os intérpretes, na sua invenção permanente. Mas Utopia é também o título de um dos mais recentes discos editados por Miguel Azguime, em que se inclui a primeira obra tocada nessa noite, ConCordas.

Este título está relacionado com pelo menos dois aspectos desta obra de 2016. O primeiro, e mais evidente, é que se trata de uma obra para cordas ou, mais precisamente, para 13 instrumentos de corda solistas. Azguime não propõe uma escrita para “orquestra de cordas”, mas sugere desta forma que cada instrumento tem a sua diferente contribuição autónoma (nenhum violino faz exactamente o mesmo que outro, por exemplo). O segundo aspecto, relacionado com este, é que esta é uma obra que investiga a possibilidade de concordância ou “consonância” a partir daquilo que habitualmente se classifica como extrema dissonância. É de facto de um trabalho harmónico que se trata, construído sobre dois agregados harmónicos sobrepostos que navegam e “derivam”, e sobre as possibilidades do uso da microtonalidade, uma das pesquisas recorrentes de Miguel Azguime. Nas notas de programa, o compositor explica que há um trabalho sobre a densidade harmónica, chegando “até uma morfologia melódica que, lentamente, atravessa a parte central” e que se dá uma transformação de um agregado harmónico num “objecto sonoro espectral”. Trabalho na senda da chamada “música espectral”, partindo de uma análise do “espectro” do som para criar timbres específicos e, mais do que isso, investigar novas possibilidades criativas no “interior” do som e do timbre. Uma peça com momentos violentos, quando as cordas se juntam, conjuntam e desconjuntam, mas onde emerge uma voz quase lírica de todas as sobreposições harmónicas microtonais. Apesar da cor-de-laranja lá atrás no ciclorama, vimos também um azul despontar no espectro das cores nesta peça radical e intrigante. Muito bem interpretada pela Camerata Alma Mater (com a direcção de Pedro Neves), grupo para o qual foi escrita a obra.

Veio depois Beethoven, que não ficou nada “entalado”, e veio bem a propósito. Aí, a linguagem é bem outra: o que um diz, o outro completa, e outro acrescenta e outro varia. No ciclorama, a cor foi o vermelho. Mas entrevimos outras cores na teia de amizades sonoras que o Trio em Si bemol, op. 11 desvela, nesta “simpatia” de câmara escrita por Beethoven em 1797, que se conclui com uma série de nove variações sobre um tema popular na época. Nuno Pinto, no clarinete, Filipe Quaresma no violoncelo e Elsa Silva no piano (três músicos do Sond'Ar-te Electric Ensemble) fizeram uma interpretação excelente, decidindo-se por uma sonoridade bem corpulenta, e não apenas centrada nos jogos clássicos de Beethoven, de oposições, continuidades ou surpresas em cada variação.

As maiores expectativas desta noite eram, no entanto, para a estreia do Triplo Concerto para Clarinete, Violoncelo, Piano e Orquestra de Cordas, uma encomenda do CCB a Miguel Azguime, com inspiração beethoveniana, pois claro. E ouvimos um concerto empolgante, com gestos de virtuoso por vezes interrompidos, outras vezes repetidos e outras vezes variados. Mas já não são interrupções e variações à Beethoven. São voltas do som procurando outro lugar que (ainda) não existe e não apenas buscando a forma clássica de “regressar”. O clarinete fica um instrumento enorme, com o grande som de Nuno Pinto enchendo a sala. O piano de Elsa Silva tem um fogo ao mesmo tempo firme e transbordante. E Filipe Quaresma entreteceu os virtuosismos azguimianos como se, muito a sério, brincasse. Como se sentíssemos o prazer dos intérpretes em vencer o ultra-difícil, aceitando com um sorriso o grande desafio do compositor. Uma bela cumplicidade criadora que se revelou neste concerto à volta desta viagem de gestos e timbres que, como disse o compositor ao apresentar a peça, é uma viagem que já não tem regresso ao ponto de partida. As cores da música levam-nos para outro lugar (e deixam-nos projectar também as nossas cores de ouvintes!), e regressa um tom azul (agora sim, coincidindo com a luz do ciclorama), no meio de um regenerado gesto de desafio e de exigência de outro mundo, que este Triplo Concerto busca e descobre, à sua maneira. Os solistas não enfrentam a orquestra como um combate, à maneira de Mozart e Beethoven, mas todos mudam o som de todos. Reencontramos a palavra Utopia, do título.

E aqui a crítica tem de se socorrer de imagens poéticas, porque não basta descrever o som para entrarmos nele (nem isso seria possível) e esta estreia absoluta é um bom exemplo disso. Nesta composição de Miguel Azguime ouvimos desejo e desespero, no meio da empolgante alegria da criação que transforma quem faz e quem escuta. E também ali nos pareceu ouvir um caminho reencontrado, um jogo de infância e um... zás!

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