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Poder-se-ia dizer simplesmente: que belo concerto, este da noite de terça-feira, no Museu da Fundação Oriente, em Lisboa. Mas não era apenas um concerto — é preciso explicar o contexto excepcional em que se insere.
O FIP — Festival Itinerante de Percussão é uma iniciativa da associação Arte no Tempo e realiza-se desde 2018 em diversas cidades do país. Chegou este ano à sua 6.ª edição (só em 2020 não se realizou). Em 2025 teve lugar na Escola Superior de Música de Lisboa e no Museu da Fundação Oriente. É um festival que junta sete instituições de ensino superior portuguesas em que existe o curso de percussão. São elas a Academia Nacional Superior de Orquestra / Metropolitana (Lisboa), a Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo / IPP (Porto), a Escola Superior de Música de Lisboa / IPL, a Escola Superior de Artes Aplicadas / IPCB (Castelo Branco), a Universidade de Aveiro, a Universidade de Évora e a Universidade do Minho.
Ao longo de quatro dias, jovens percussionistas oriundos de cada uma das sete escolas superiores reúnem-se em septetos para preparar uma nova obra, composta por um compositor português e estreada no evento de encerramento do Festival. Nos quatro dias realizam-se também masterclasses de percussão com percussionistas e professores, abertas também a alunos do ensino secundário.
Este ano houve masterclasses de Marco Fernandes (tímpanos e percussão de orquestra), André Dias (caixa), Jeffery Davis (vibrafone), Vasco Ramalho (marimba), e ainda de Pedro Carneiro, Nuno Aroso e João Dias, que ficaram encarregues de preparar as novas obras para septeto de percussões que foram apresentadas no último dia do FIP. O festival inclui ainda recitais de solistas que juntam os professores e alguns alunos, jovens percussionistas escolhidos de entre os que responderam a uma chamada para o efeito.
Estamos, pois, perante um evento que é muito mais do que uma série de concertos, mas uma iniciativa integrada (aprendizagem, partilha, criação, escuta) com uma dimensão artística e pedagógica importante. A sua principal originalidade é mesmo a sua itinerância, permitindo o contacto de professores e alunos de percussão de escolas de todo o país. E os resultados estão à vista: seis edições realizadas, 18 novas obras para septeto de percussão estreadas e um frutuoso contacto entre percussionistas que quebra as rivalidades entre escolas e propõe colaborações produtivas, promovendo encontros e aprendizagens com propostas práticas, estreitamente ligadas à nova criação.
Perdoem-nos a explicação longa, mas necessária, para se perceber que este concerto não é um acto isolado, mas a festa final de um processo intenso de um festival dirigido e produzido por Diana Ferreira (da Arte no Tempo) e Mário Teixeira (professor e percussionista que apresentou o concerto no início e disse algumas palavras sobre o evento entre peças, convidando os compositores das três peças a dizer também algumas palavras sobre a sua criação). Vamos então, finalmente, ao concerto.
Um teatro de madeira, uma viagem de metais e um estudo de peles

A primeira peça, do compositor Bernardo Lima, intitulava-se Materia Lignorum, e foi tocada por Filipa Ribeiro, Simão Pereira Veiga, Afonso Bessa, Rodrigo Pinho, Amadeu Lança, Yi Huang e Raúl Eira, cada aluno de uma escola diferente. A direcção, neste caso, foi de João Dias. Materia Lignorum é uma peça em que a madeira (o material) é a protagonista principal, mas onde a voz surge também como se fosse «um bicho da madeira», como disse o compositor quando subiu ao palco. Junta instrumentos com altura definida (a marimba) com outros de altura indefinida, e assume-se como uma exploração tímbrica do som da madeira, por vezes buscando sons pouco habituais (marimba tocada suavemente com as mãos e sem baquetas, por exemplo). Uma peça bem desafiante e sensível, que se desdobra não como uma história, mas (quase) como um teatro. Como se entrássemos em cena com os nossos ouvidos numa espécie de casa de madeira, para um jogo de escuta suave e de cores cativantes onde dialogam castanhos e amarelos, e surgem sons raspados ou afagados, nunca ríspidos, mesmo se levantam a voz. E quando, a certa altura, a música parece recomeçar como no início, tudo é já afinal diferente neste teatro de sons.

Também estimulante, mas bem diferente no carácter e no timbre foi a peça de Nádia Carvalho, Echoes of Alloy: Of Shards and Shimmers (que arriscamos traduzir por «Ecos de metais: sobre brilhos e fragmentos»). Mais uma estreia, desta vez com os estudantes Gabriele Petrucci, Gustavo Silva, João Ferreira, Micael Ferreira, Isaque Andrade, Hélder Santos e Rodrigo Loureiro. Aqui a direcção foi do percussionista e maestro Pedro Carneiro, que tinha o desafio de dirigir uma peça em que muita coisa não está escrita de forma tradicional. Nesta peça, como o título indica, é de percussões de metal que se trata, incluindo instrumentos como o vibrafone ou os gongos, mas também outros menos comuns, como travões de carro ou o flexatone. A compositora apresentou-a como um estudo sobre o timbre do metal, que não é só sólido, mas pode ser líquido e até «vaporoso». Se a peça de Bernardo Lima era um teatro de sons, a de Nádia Carvalho era muito mais uma viagem abstracta, com os sons metálicos sugerindo paisagens onde eles se fundem, encontram ou afastam. Deixando para nós, ouvintes, a descoberta pelo caminho de árvores azuis, pedras cinzentas e nuvens de verde metálico da nossa imaginação.

Finalmente ouviu-se no Auditório da Fundação Oriente a peça de António Pinho Vargas, Dissolves me into geometrics, pelo septeto formado por Carolina Gomes, Diogo Pinto, Francisco Franca, Bernardo Ramos, Leonardo Simões, Pedro Arrieche e Paulo Dias, com Nuno Aroso na direcção. Uma peça para instrumentos de percussão de pele e sem alturas definidas, respondendo ao desafio lançado pela Arte no Tempo. A limitação da encomenda parece ter sido bom estímulo para Pinho Vargas, que se lançou numa investigação sonora e musical que não passa tanto pelas alturas do som (embora os contrastes grave / agudo sejam importantes na peça), mas sobretudo por jogos dinâmicos (sempre rítmicos, é claro!) e uma dimensão interessante de espacialização sonora que naquele auditório resultou particularmente bem. Também esta peça, como as dos seus predecessores mais jovens daquela noite, tem um lado de estudo. Mas aqui é um estudo poético, que junta exercícios rítmicos (por exemplo accelerandos e ritardandos ou jogos imitativos entre os sete elementos) a fragmentos onde parecem pairar obsessões e «geométricos» pensamentos. Isto sem nunca descurar o jogo formal em que as dinâmicas (de piano a fortissimo) têm a primazia, no quadro de uma exploração tímbrica a partir das sonoridades das peles (de congas a grandes bombos). Uma peça de Pinho Vargas cheia de jovialidade, talvez inspirada pelo saudável clima de encontro e aprendizagem que este FIP respira, com percussionistas, estudantes, professores e criadores de várias gerações.
Ou podia dizer-se simplesmente: que belo concerto! Com um prato, tchhhh, saudando o festival.
O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
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