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2026.02.05

Concerto do Ensemble DME no âmbito do encontro internacional Pensar a Música Hoje;
obras de Mariana Vieira, Jaime Reis, Carlos Caires e Hèctor Parra;
Pedro Carneiro (maestro), Alex Waite (piano), Ângela Carneiro (violoncelo), Beatriz Costa (violino),
Carlos Silva (clarinete), Mafalda Carvalho (flauta), Suse Ribeiro (projecção sonora);
sábado, 31 de Janeiro, às 21h00, Goehte-Institut, Lisboa.
Energia, tensão, densidade (e um belo ápice!)
PEDRO BOLÉO

De 30 de Janeiro a 2 de Fevereiro realizou-se o encontro internacional Pensar a Música Hoje, resultado de uma colaboração da associação Arte no Tempo com o Projecto DME. Programadores de diferentes países, festivais e instituições europeias juntaram-se para reflectir sobre a programação de música contemporânea.

Tudo começou no dia 30 de Janeiro, com um encontro informal no Lisboa Incomum. No dia seguinte, 31 de Janeiro, no Goethe-Institut, houve uma conversa para partilha de diferentes pontos de vista e diferentes práticas em programação. O encontro Pensar a Música Hoje seguiu ainda nos dias seguintes no Porto, com um concerto pelo ensemble ars ad hoc, no Auditório de Serralves, e uma reflexão final na Fundação de Serralves. Na noite de sábado, dia 31, no Goethe-Institut Portugal, em Lisboa, pudemos assistir a um concerto pelo Ensemble DME de que fazemos aqui eco.

Jaime Reis, do Projecto DME, apresentou o concerto, com obras de compositores portugueses e uma peça do espanhol Hèctor Parra, identificando um traço comum destas peças bem diferentes entre si — música plena de «energia, tensão e densidade».

Energia, tensão e densidade foram bem audíveis logo na peça inicial de Mariana Vieira para quinteto (violoncelo, violino, clarinete, flauta, piano) e electrónica, Retracement. Uma peça muito estimulante em que ataques do quinteto são interrompidos por breves momentos em que se deixa ressoar a complexidade tímbrica lançada por gestos frequentemente rápidos. Uma electrónica dialogante interfere constantemente nas buscas sonoras desta peça escrita em 2021 pela mais jovem compositora do programa desta noite. Pareceu-nos que faltava tempo para a peça ressoar mais longamente, e espaço para ela crescer. O tempo em música depende do que se propõe, é sempre relativo, e não tem a ver só com a sua duração (cerca de nove minutos, neste caso). Aos nossos ouvidos, a sua complexidade tímbrica e as suas boas ideias gestuais pareciam ter pano para mangas, quer dizer, abriam espaço para se desenvolverem em tempos mais longos ou em suspensões ressonantes maiores. Não poderia Retracement ser «alargada» por dentro ou, em alternativa, ser um primeiro movimento (de energia condensada) de uma peça maior?

A peça de Mariana Vieira foi dirigida pelo maestro Pedro Carneiro e tocada por Alex Waite (piano), Ângela Carneiro (violoncelo), Beatriz Costa (violino), Carlos Silva (clarinete), Mafalda Carvalho (flauta), com Suse Ribeiro na projecção sonora.

Jaime Reis · © Sofia Nunes
Jaime Reis · © Sofia Nunes

De seguida vieram, sem necessidade de maestro, Sangue Inverso (II) e Inverso Sangue (II): Granito (A), seguidas de Sangue Inverso (III) e Inverso Sangue (III): Obsidiana (A) — esta com a entrada de Trevor McTait para a viola d’arco — peças «gémeas» (as duas primeiras para quinteto e as outras para sexteto) de Jaime Reis. Peças de um ciclo maior (todas com o título Sangue Inverso/Inverso Sangue) com títulos de minerais, cujas peças têm suficiente autonomia para viverem sozinhas. Aqui a complexidade é ainda mais acentuada do que na peça de Mariana Vieira, embora alguns traços estruturais ajudem a «organizar» a escuta. Frequentemente, as cordas jogam entre si, tal como os sopros, enquanto o piano joga com ambos. Peças duras, difíceis de tocar, e ousadas na sua pesquisa tímbrica, com dinâmicas muito vivas, que o Ensemble DME tocou com (boa) energia, evitando a confusão que pode emergir do facto de haver muitos acontecimentos musicais em pouco tempo.

Carlos Caires · © Jorge Carmona
Carlos Caires · © Jorge Carmona

Seguiu-se Propagation, de Carlos Caires, uma peça para violino, viola, flauta, clarinete, piano e electrónica, escrita em tempos de COVID-19. O seu título a isso faz alusão, e alguns processos de construção formal têm a ver com os ritmos de propagação do vírus («transpostos» para configurações musicais). Aqui, ouvimos uma peça muito mais clara e calma nos seus gestos do que nas peças anteriores, com uma sonoridade cativante que sugere movimento (imaginado), para além do movimento real da música. Propagation tem passagens em que ficamos apenas com a electrónica, e outras em que combina os estímulos rítmico e tímbrico de forma admirável, com surpresas que, mesmo num tempo curto (a peça não tem mais de nove minutos), são capazes de nos emocionar.

Finalmente, a maior peça do concerto, com 19 minutos, pareceu-nos voar num instante, de tão fascinante que é, na sua capacidade de construir o timbre numa habilidade conjunta do ensemble, que foi primoroso na compreensão da música de Hèctor Parra. Stress Tensor, assim se chama esta peça de 2009, é uma obra onde cada instrumentista do sexteto (flauta, clarinete, piano, violino, viola e violoncelo) parece saber exactamente como pode contribuir para a comunidade tímbrica que ali emerge. Nesse sentido, podíamos dizer que é uma peça que combate a alienação (do músico como do ser em sociedade). É o movimento de conjunto que é particularmente vivo e interessante, mesmo se, por exemplo, as cordas têm «jeitos seus». As interrupções súbitas, constantes na peça, dão-lhe uma força inusitada. A certa altura, algo como uma canção emerge, lírica e dissonante, mas também isto se interrompe. A máxima complexidade e densidade (grande número de acontecimentos em pouco tempo) ali aparecem legíveis, entre harmonias que se desfiam em gestos rápidos, em ruídos ou, noutro momento, como se um enxame de abelhas visitasse a música de Messiaen. Uma belíssima peça de Hèctor Parra, que mostra bem como o tempo é relativo — 19 minutos que passaram num ápice. Mas que belo ápice!

O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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