 Miso String Quartet
© EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
Surgiu um novo grupo dedicado à música contemporânea: o Miso String Quartet, que fez a sua estreia intergaláctica no penúltimo dia do Música Viva, num excelente concerto de sábado à tarde, na Sala Bernardo Sassetti do Teatro São Luiz, em Lisboa. Um grupo que promete dedicar-se à música absolutamente nova, mas também ao repertório «estabelecido» para quarteto de cordas até ao século XX. O Miso String Quartet é formado por Pedro Lopes (1.º violino), César Nogueira (2.º violino), Joana Cipriano (viola) e Luís André Ferreira (violoncelo).
Mas quem abriu a tarde foi a actriz Joana Santos, lendo muito bem pequenos textos de Gonçalo M. Tavares, incluindo O desempregado com filhos, poema de duro sarcasmo assumidamente inspirado no tom e na forma lapidar de alguns poemas de Bertolt Brecht. Insurgência irónica, de engolir em seco.
 Miso String Quartet e Diogo Alvim
© EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
Musicalmente, tudo começou com a peça de Diogo Alvim, Tłumaczenie, quarteto de cordas de 2015, escrita originalmente para o quarteto polaco Royal String Quartet e estreada em Belfast. A obra parte de uma experiência de tradução entre arquitectura e música (Diogo Alvim também é formado em Arquitectura), tomando como referência o edifício «quase suspenso» do Departamento de Música do Stranmillis College, em Belfast. Tłumaczenie significa tradução em polaco, e a peça tenta, em três andamentos, diversos exercícios de «tradução»: de texturas e timbres da música de Penderecki, da obra do artista plástico Edward Krasiński (em particular da «linha azul» que atravessa várias obras suas) e de um romance de Stanislaw Lem (A Voz do Dono). O resultado desta tripla inspiração (musical, plástica e literária) é uma obra extremamente bem conseguida, onde os ruídos são material sonoro primordial (pressão forte dos arcos nas cordas ou uso de percussão do corpo dos instrumentos ou mesmo nas estantes). Uma peça que cria espaços (sonoros) desafiantes por onde apetece caminhar e que mostrou a qualidade sonora do Miso String Quartet, do pianíssimo inicial até às secções mais rápidas e enérgicas, onde emergem glissandos quase zangados, mas nunca descarrilando. Sentiu-se também uma energia interpretativa que não deixa o ouvinte desligar em nenhum momento e que captou bem o lado «suspenso» desta obra de traduções impossíveis.
 Miso String Quartet e Doina Rotaru
© EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
Seguiu-se Vivarta de Doina Rotaru, uma obra sem medo de gestos arroubados, mas bem longe de serem românticos no seu carácter. Surgem antes como dinâmicas revividas, como memórias. O mais interessante da peça é que ela coloca cada linha e cada músico como entidades vivas num todo movente, sem perder a noção do que se tece colectivamente. Podia ser a banda sonora de uma memória humana (colectiva?), construída a partir de melodias arcaicas da música romena que lançam um contínuo sonoro por vezes interrompido (por exemplo num corte do violoncelo), para logo prosseguir a sua trama. Vivarta é uma palavra da filosofia hindu com múltiplos sentidos, entre os quais os de transfiguração e eterno retorno. Esta curiosa peça de Rotaru faz isso mesmo: transformação contínua, numa espécie de espiral sonora onde tudo regressa e se modifica incessantemente. Mais uma vez com o Miso String Quartet em muito bom plano, urdindo as cumplicidades necessárias para revelar a trama da peça.
Finalmente veio Different Trains, de Steve Reich, peça de 1988 para quarteto de cordas e tape. Os músicos tocam, de certa forma, «sobre» a gravação, que é o quinto elemento, quase um guia para os músicos, incluindo sons de comboios, sons pré-gravados do quarteto, sirenes e sinos de aviso dos comboios, e vozes fragmentadas sublinhando em repetições (e sobreposições com os instrumentos) a melodia da fala. De certa forma, estamos perante vários quartetos sobrepostos, dando uma densidade inesperada a um procedimento relativamente simples, como aliás praticou Steve Reich em muitas das suas peças. Os músicos tocam frequentemente acompanhando os fragmentos de melodia da fala, o que faz com que vejamos a destreza técnica dos intépretes num sentido diferente do habitual. Aqui o virtuosismo é outro — fazer-nos entrar nestes comboios (e nestas linhas), que são os da infância de Reich nos EUA, mas também os do Holocausto durante a Segunda Grande Guerra na Europa e os de depois da guerra, agora marcados pelo terror, mas talvez também por uma nova esperança. Também os jogos de repetição, sempre variados, a concentração visível e audível dos músicos, e os «comboios» em que os intérpretes e o compositor nos colocam (auditivamente), fazem a emoção emergir de onde menos se espera, numa experiência que ao vivo é ao mesmo tempo estranha e tocante, «across a strange wonderful land», como diz uma canção de Johnny Cash (também com comboios).
Belo trabalho do Miso String Quartet, que revela estar pronto a tocar seja o que for — estejamos atentos.
 Sinfonietta de Braga, com a mastreina Rita Castro Blanco
© EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
Não pudemos infelizmente estar presentes no concerto da Sinfonietta de Braga dirigida por Rita Castro Blanco, com um programa que ia de György Ligeti (Ramifications), Alban Berg (Três peças para orquestra de cordas da Suite Lírica) e Tōru Takemitsu (Requiem para orquestra de cordas) até compositores de hoje, como Bruno Gabirro (de quem foi tocada a espectacular Rebel (Chaos), de 2008) e Carlos Brito Dias (com a delicada e fascinante obra was birgst du so bang dein Gesicht?, de 2022). Assinalamos apenas que se trata de uma das constantes deste Festival, juntando obras importantes do século XX (ou de compositores bem reconhecidos) a peças de compositoras e compositores portugueses, algumas em estreia absoluta ou muito recentes.
Antes do concerto da Sinfonietta de Braga, Miguel Azguime leu de Os Lusíadas, o Canto IV, estâncias 94–104 de Luiz Vaz de Camões, o famoso episódio do Velho do Restelo: «Mísera sorte! Estranha condição!»
... e um fecho vigoroso
Ainda algumas palavras sobre um potente fecho de Festival Música Viva, com o Triplo Concerto de Azguime ao lado do Triplo Concerto de Beethoven. Miguel Azguime começou por ler poemas de Mário Dionísio, originalmente escritos em francês, do livro Le Feu Qui Dort, de 1967. Poemas de amor e de raiva, de desespero e de combate pela liberdade, que ecoam fortemente nos difíceis e exigentes tempos que correm.
Seguiu-se Against Silence – Triplo Concerto para Clarinete, Violoncelo, Piano e Orquestra de Cordas de Miguel Azguime, obra que parecia fazer parte do «repertório», de tal forma foi tocada com à vontade pela Orquestra Metropolitana de Lisboa. É verdade que o maestro Pedro Neves a conhece bem (já tocou e gravou com a Camerata Alma Mater), mas não deixa de ser surpreendente que ela pareça agora uma peça «que seria normal fazer», quando na verdade é uma peça esticando os limites, exigindo coisas difíceis aos intérpretes — microtonalidades, atenção ao som de conjunto, transfiguração permanente no carácter — e criando em nós ouvintes qualquer coisa que nos faz agir — entre a angústia e a exasperação, entre o desespero e a luta. Ressoaram os versos de Dionísio antes lidos — um fogo que dormia, acorda — «comment le taire?» Para Azguime, o que fervilha é a criação livre, numa procura incessante no interior do som.
 Pedro Neves
© EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes
Against Silence é pesquisa «dentro» (na poesia do som e nas suas qualidades intrínsecas), mas também, mais do que outras obras suas, é uma procura «fora», na sociedade, ao lado de músicos seus cúmplices (brilharam os solistas Filipe Quaresma, Nuno Pinto e Elsa Silva, às vezes em curiosos trios dialogantes), e de um maestro que compreende bem a sua música, Pedro Neves. Mas também desejando comunicar a dissonante beleza aos ouvidos do mundo — porque Against Silence é também um grito de resistência e liberdade criativa, uma arma contra a barbárie.
Depois, veio Beethoven. Um Triplo Concerto começado a escrever em 1803, num momento de viragem da obra do compositor, assumindo a sua arte plenamente como procura dum ideal, rebeldemente se preciso for (são os tempos da Heróica). Com Vítor Vieira no violino (em grande estilo, diga-se), ao lado de Elsa Silva, piano e Filipe Quaresma, violoncelo. Um Concerto com pequenas imperfeições interpretativas (alguns problemas de ritmo), mas uma alegria ainda assim contagiante. Também aqui Beethoven lançava à humanidade a esperança, desesperadamente.
O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
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