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Música nova exige sempre a nossa curiosidade. Nesta ocasião, a curiosidade ia inteirinha para uma peça de Constança Capdeville, redescoberta por António de Sousa Dias, compositor e investigador que foi também aluno e colaborador artístico desta compositora marcante do século XX português. Concertino é uma peça de 1965, com este título que poderia surpreender por parecer «antigo», tratando-se de uma peça inovadora e plenamente do seu tempo. Talvez este título tenha a ver com uma inscrição plena de Constança Capdeville (nascida em Barcelona em 1937, mas que viveu em Portugal desde os anos 50) numa história da música portuguesa, que estudou profundamente e conheceu bem, sem deixar de se interessar pela cultura catalã e a usar criativamente. A peça inclui, aliás, no segundo andamento, uma espécie de variações a partir da Canção do Figueiral, canção portuguesa antiga que já tinha sido repescada por Viana da Mota ou Fernando Lopes-Graça.

Um quarteto de cordas que ninguém conhecia (a não ser os investigadores e os «ratos de biblioteca») — e terá sido, talvez, escrito para um concurso de composição (mas não chegou a ser tocado, tanto quanto se sabe) — e que foi interpretado admiravelmente, com energia e clareza (embora não tenhamos termos de comparação, pois claro), por este quarteto de cordas que possui quatro músicos excepcionais: Pedro Lopes (violino), César Nogueira (violino), Joana Cipriano (viola) e Luís André Ferreira (violoncelo). Um quarteto não é uma soma de quatro músicos — é a sua combinatória técnica e expressiva, é a multiplicação de planos sonoros que permite, e é também uma história muito rica, de Haydn a Chostakovitch (e por aí fora até hoje), que qualquer compositor que se abalance a enfrentá-lo deve, pelo menos em parte, conhecer. Percebe-se que Constança sabia o que fazia.
Música nova, sim, mas com mais de 60 anos, e só agora possível de ouvir graças ao trabalho de transcrição e pesquisa de António de Sousa Dias. Música do seu tempo, já com as descobertas que o serialismo propunha, mas na linguagem livre e sempre cativante de Constança. Concertino terá precedido Música para 15 Executantes , do mesmo ano de 1965, para conjunto instrumental, a julgar pelas indicações de atribuição de instrumentos anotadas a lápis na partitura (é o que sugere António de Sousa Dias). E a obra aponta também para o árduo trabalho seguinte da compositora (o tour de force de Diferenças sobre um intervalo, para orquestra, é de 1969).
Emocionante foi ouvir, nas mãos destes intérpretes, este antigo novo pela primeira vez: a voz musical de Constança Capdeville, que nos agarra pela inventividade mas também pelas suas formas de articulação modernas: música nunca fechada e «abridora de ouvidos», sem molezas nem passadismos, desde o Allegro inquieto inicial até ao regresso das inquietudes no final, mas também com passagens por zonas tranquilas nas modernas variações sobre a Canção do Figueiral.
«Os caprichos têm data», escreveu Mário Dionísio em A Paleta e o Mundo, um grande ensaio sobre arte e sociedade publicado no final dos anos 50 e início dos 60, pouco antes da peça de Constança. Ele falava de pintura, mas também serve para a música: a singularidade e originalidade dos criadores (os seus «caprichos»), não deixam de ser uma ligação ao seu tempo (e têm data), mesmo que seja «contra ele», desafiando-o, propondo através da arte uma visão outra, um mundo diferente. Constança em 1965. Nós ouvindo-a, em 2026.

Vem Mário Dionísio também a propósito da primeira peça tocada nesta noite no O’culto da Ajuda que toma por título um livro de poemas que o ensaísta e poeta escreveu directamente em francês: Le Feu Qui Dort. O primeiro poema desse livro foi projectado na sala, no início da peça de Miguel Azguime, com o seu início supreendente, à beira dos surrealismos («Uma chuva de touros caiu sobre a cidade»), e o seu final que aponta para um fogo que dorme e que foi acordado («le feu qui dort est éveillé»), apesar de tudo o que murchou (memórias, desejos, remorsos). Esse fogo pode ser visto, entre outras coisas, como a potência da criação, um fogo em brasa que pode subitamente levantar-se em chamas.
Este quarteto de Miguel Azguime, de 2008, parece «de pernas para o ar», apresentando no final materiais sonoros antes trabalhados. A verdade é que isso lhe dá uma energia enorme na parte inicial, levantando o fogo adormecido e suscitando uma atenção exigente do ouvinte. Uma obra do século XXI que já teve a sorte de ser tocada várias vezes — temos aqui forma de comparar interpretações (por exemplo esta com a do Quarteto de Cordas de Matosinhos que estreou a obra). O que é certo é que foi uma interpretação bem viva, não temendo as dificuldades que a partitura coloca — ritmos desfasados, mas rigorosos; microtonalidades, mas «justamente» desafinadas; um discurso com cortes, mas claro no seu sentido de descoberta e revelação.

Depois das obras de Azguime e Capdeville, ouvimos ainda Different Trains (de 1988), de Steve Reich. Peça fragmentada, mas com um fio que nunca sai dos seus caminhos de ferro. Uma composição surpreendente também na forma como consegue, colocando os músicos a tocar com uma gravação, fazer com que eles se fundam e estejam sempre ora mergulhando, ora emergindo, criando planos diferentes, dando aos ouvintes uma espécie de tridimensionalidade auditiva. Different Trains é também uma obra política, referindo-se às vítimas do nazismo, transportados em comboios a caminho da morte nos campos de concentração. Reich usa processos de speech-melody (técnica experimentada por ele noutras obras anteriores) pegando neste caso em fragmentos de depoimentos de sobreviventes do holocausto nazi e jogando com as «melodias da fala» desses fragmentos, que o quarteto de cordas vai sublinhando. Por vezes, essas vozes dizem apenas datas: 1939, 1940, 1941. E dá-se mais uma surpresa: é que estas simples datas se tornam (porque sabemos que são as da tragédia histórica) motivos de intensidade emotiva particular. E, no entanto, são só números, fragmentos, resquícios de vozes, numa viagem musical (sempre em comboios, com ilustrações musicais claras dos seus apitos e uso de sons de comboios também na gravação) que podia ser apenas radiofónica, mas que ao vivo ganha outra força.
Este grupo muito recente, o Miso String Quartet, é mais um projecto ligado à Miso Music Portugal (com direcção artística de Miguel Azguime) a ganhar traquejo, cumplicidade e sentido. Ele nasce, como declara o quarteto, «da vontade de construir em Portugal uma formação estável capaz de cruzar a grande tradição do quarteto de cordas — do repertório clássico e romântico até à criação dos séculos XX e XXI —, de fomentar novas encomendas e de assumir a música mista como um território de identidade, integrando electrónica». Saúde-se a sua vitalidade — e estejamos atentos aos próximos passos.
O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
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