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Livro Comemorativo sobre a Miso Music Portugal


Capa · Livro · Sentem Sem Som Cem Sons SempreA Miso Music Portugal é uma associação dedicada à promoção, desenvolvimento e disseminação da música contemporânea. Em 2025, teve um ano de intensa dinâmica, com destaque para a organização, pela primeira vez em Portugal, dos World New Music Days, o grande festival internacional de música contemporânea da International Society for Contemporary Music, uma rede mundial de organizações que se dedicam ao estímulo da arte musical dos nossos tempos.
   Mas 2025 foi também o ano em que a Miso Music assinalou 40 anos de actividade, contando a partir da fundação, em 1985, do Miso Ensemble, o duo formado por Miguel Azguime e Paula Azguime, que deu origem à Miso Music.
   Para assinalar os 40 anos da Miso Music Portugal foi lançado, em Dezembro de 2025 no Teatro São Luiz em Lisboa, o livro Sentem Sem Som Cem Sons Sempre — 40 Anos da Miso Music Portugal. O programa do encontro de lançamento incluiu uma mesa-redonda moderada por Pedro Boléo, com a presença de Rui Vieira Nery, Teresa Albuquerque, Pedro Neves e Paula e Miguel Azguime, bem como a interpretação da peça Constelações, do Miso Ensemble, por Clara Saleiro (flauta) e Pedro Carneiro (marimba), e de duas árias da ópera A Laugh to Cry pelo Komorebi Duo (Camila Mandillo, soprano; João Casimiro Almeida, piano): Enveloppement e a Ária do Riso.
   O livro Sentem Sem Som Cem Sons Sempre reflecte sobre a actividade transbordante da Miso Music Portugal e do Miso Ensemble.
   Ao longo de quatro décadas, a Miso Music Portugal desdobrou-se em múltiplas iniciativas, que vão muito para além da criação artística: encomenda de obras a compositores e compositoras contemporâneas e criação de condições para a apresentação pública da sua música; apoio e promoção dos criadores da música nova no país e no estrangeiro; a formação da Orquestra de Altifalantes, da Miso Records e do Miso Studio; a realização do Música Viva, festival anual dedicado à criação e interpretação da música da actualidade que já teve 31 edições; a organização de concertos e encontros dedicados à música de arte dos nossos tempos; a pesquisa e desenvolvimento de ferramentas tecnológicas para a criação musical e o estímulo à criação de música electroacústica; a manutenção e o desenvolvimento dos arquivos e bases de dados de um Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa, o MIC.PT; a participação em redes internacionais de música contemporânea e uma acção consistente no sentido da internacionalização da música portuguesa de hoje; a criação do Sond’Ar-te Electric Ensemble, um ensemble com a direcção de Miguel Azguime e que emana, em grande medida, da acção da Miso Music. E ainda a realização de residências, workshops, concursos, acções educativas para os mais novos. Isto para além da criação de dois espaços — em 2014 do O’culto da Ajuda, espaço de criação e de apresentação da música contemporânea ou de projectos inter-artes (ópera contemporânea e outras formas de cruzamentos artísticos) em que a nova música tem um lugar central; e da Estação das Artes no concelho de Odemira, que pré-inaugurou no final de 2025. Um dos objetivos deste novo espaço é descentralizar a criação, apresentação e produção artísticas, proporcionando às pessoas que vivem fora dos grandes centros urbanos acesso a obras de arte de excelência.
Paula e Miguel Azguime · Foto: José Fabião    Tudo isto sem parar de criar. Para além do trabalho de Miguel Azguime enquanto compositor, o Miso Ensemble prosseguiu o seu caminho. Este duo reconfigurou-se no século XXI, deixando de actuar como duo de flauta e percussão e dedicando-se hoje a projectos de criação de New Op-Era (como designam os seus criadores Paula e Miguel Azguime) e outras criações musicais que exploram novas possibilidades nas fronteiras do teatro e da música, por vezes com a presença do vídeo, habitualmente com textos de Miguel Azguime e frequentemente com a sua presença também como performer.
   Sentem Sem Som Cem Sons Sempre é um livro comemorativo, mas também um objecto que pretende reflectir, a várias vozes, sobre o intenso, produtivo e fértil percurso do Miso Ensemble e da Miso Music. Para contar histórias importantes de uma actividade que deixou e continua a deixar marcas fortes na vida musical portuguesa, mas também para abrir caminho, afirmando-se como um livro em aberto, terminando com os olhos postos no presente e no futuro.
   Sentem Sem Som Cem Sons Sempre partiu de duas grandes entrevistas aos seus dois fundadores, lembrando os gestos, as atitudes, as pessoas que se cruzaram no longo caminho da Miso Music, para entender os tempos e os ciclos, dar-lhes nomes, perceber as bifurcações e as continuidades. A partir desse exercício de rememoração, Miguel e Paula Azguime reescreveram textos, em conjunto e cada um, permitindo seguir o fio principal da actividade da Miso Music contado pelos seus fundadores.
   Um percurso longo, denso, rico, polirrítmico, multilingue, talvez demasiado grande para caber num livro. É fácil imaginar que há muito mais (barreiras ultrapassadas, projectos desafiantes, encontros felizes), porque é de facto transbordante esta viagem de paixão pela música e pela arte, na descoberta incessante de novos caminhos.
   O livro possui uma ordem cronológica, definindo quatro fases diferentes com um título e um intervalo temporal: A lenta fermentação do Miso (1985–1999), Nada se perde (2000–2007), Tudo se transforma (2007–2014) e «Crescermos em todos os lugares» 1 (de 2014 até ao futuro).
   Sentem Sem Som Cem Sons Sempre resultou também de um trabalho de investigação complementar para garantir a exactidão, por exemplo de datas, títulos de obras ou nomes de pessoas. Ou para descobrir fotografias e recortes de imprensa, que o livro também inclui, recorrendo a um arquivo bastante completo que a Miso Music guarda da sua actividade ao longo de décadas.
Paula e Miguel Azguime · Foto: Jade Mandillo    O título do livro, Sentem Sem Som Cem Sons Sempre, pega em versos de Itinerário do Sal, uma Nova Op-Era do Miso Ensemble estreada em 2006 com composição e performance de Miguel Azguime e encenação e concepção vídeo de Paula Azguime. Uma criação marcante da dupla, resultado de longas pesquisas, mas que inaugura um tempo e uma nova maneira de trabalhar do Miso Ensemble. Este título vem de versos do compositor e poeta, apenas com um verbo mudado para o plural. Porque tudo na Miso Music passa pelos dois, mesmo quando solicita a participação de muita outra gente.
   Para além da espinha dorsal das vozes de Paula e Miguel Azguime, este livro reúne contribuições escritas de músicos, compositores, maestros, colaboradores de projectos, investigadores, jornalistas, amigos, familiares, cúmplices. Textos de variados pontos de vista, de pessoas de diferentes gerações, que tocam em múltiplos assuntos — música contemporânea, nova ópera, composição, interpretação, tecnologia, electroacústica, vida musical, relevância internacional, ecos sociais, mas também cumplicidades, formas de trabalhar, atitudes, relações afectivas. Alguns textos cruzam estes tópicos. Ficam aqui os nomes de todos os autores e autoras (por ordem alfabética): Ágata Mandillo, Andreia Nogueira, António de Sousa Dias, António Ferreira, Catarina Vaz Pinto, Christopher Bochmann, Cristina Fernandes, Eva Aguilar, Graça Filipe, Guillaume Bourgogne, João Almeida, Nuno Mateus, Pedro Boléo, Pedro Carneiro, Pedro Prista, Perseu Mandillo, Robert Glassburner e Rui Penha.
   São reflexões profundas ou depoimentos inevitavelmente pessoais, porque o itinerário comum de Paula e Miguel Azguime é feito de laços e proximidades, encontros e desencontros, paixões e resistências, caminhos e bifurcações. Com a música ao centro e a liberdade de criação artística como motor constante. Reflexões e depoimentos de pessoas que acompanharam, nalgum momento ou em muitos, o percurso rico e entusiasmante de um projecto com um papel fundamental no fomento da criação musical em Portugal.
   Sentem Sem Som Cem Sons Sempre, para além de mostrar o essencial da actividade da Miso Music dos últimos 40 anos, faz luz sobre alguns aspectos menos conhecidos da Miso Music, ou menos visíveis. Sabemos que um tremendo trabalho de preparação foi sempre necessário para que tudo aquilo que se viu e ouviu fosse possível. Quem vê os «resultados» pode não ter em mente que eles resultam de um fazer persistente e de um trabalho de bastidores, de produção, de preparação técnica, de criação de condições financeiras, de contactos com os outros, de negociações prévias. Da ideia global à solução técnica, da potencialidade à concretização, do pessoal ao institucional, da imaginação à realidade, entre permanências, confirmações, invenções, reinvenções, encontros e descobertas.

Para despertar curiosidade pelo livro e pelos textos que ele integra, este Em Foco revela alguns excertos de vários dos textos do livro.

«Passaram muitos anos, mas o que descrevo no início do texto não mudou: a Paula e o Miguel são uma força da natureza em tudo o que fazem, sempre pautados pelo fulgor, rigor, paixão, pulsão, ritmo e crença. Porque artistas sem crença são meras figuras de retórica. A Paula e o Miguel inspiraram e continuam a inspirar gerações, com os seus instrumentos, a sua Música, o seu exemplo, a sua união, o seu Amor e a sua crença: seja em palco, na penumbra dos bastidores, ou simplesmente onde estiverem.»
[Pedro Carneiro, Assim me tornei o fã número um. Em: Sentem Sem Som Cem Sons Sempre — 40 Anos da Miso Music Portugal, p. 46. Lisboa, 2025.]

«...a programação regular da MMP, quer através do Festival, quer através das múltiplas participações em concertos que a própria MMP organizou no âmbito de festivais internacionais, possibilitou a todos nós, compositoras e compositores de diferentes proveniências, estéticas e gerações, nos quais me incluo, um contexto extraordinário para a apresentação das nossas obras, facultando um importante espaço de criação, experimentação e de interpretação deste tipo de repertório e também de divulgação do nosso trabalho.»
[António de Sousa Dias, O papel da tecnologia no percurso da Miso Music Portugal. Em: Sentem Sem Som Cem Sons Sempre — 40 Anos da Miso Music Portugal, p. 122. Lisboa, 2025.]

«A versatilidade e poder de comunicação no plano artístico estenderam-se rapidamente a outros domínios de actuação, convertendo Paula e Miguel Azguime em agentes culturais no sentido mais amplo do termo e em incansáveis divulgadores do seu próprio trabalho e do dos seus colegas.»
[Cristina Fernandes, Das utopias à realidade: olhares sobre o papel da associação Miso Music no meio musical português a partir da imprensa periódica. Em: Sentem Sem Som Cem Sons Sempre — 40 Anos da Miso Music Portugal, p. 217. Lisboa, 2025.]

«Tudo está contido no nome do grupo, é claro: o som (o timbre), a arte (o artesanato), o ensemble (togetherness) e também a electricidade (electrões livres, a vibração). O Sond’Ar-te Electric Ensemble é uma história de ousadia artística e humana, feita de prazer e perseverança. (...) O Sond’Ar-te guardou o ideal do Miso Ensemble (Paula, flauta, e Miguel Azguime, percussão), que percorreu a Europa nos caminhos da criação, no seu tempo, em família e em descoberta, e não em busca de glória.»
[Guillaume Bourgogne, O Sond’Ar-te Electric Ensemble na cena internacional da nova música. Em: Sentem Sem Som Cem Sons Sempre — 40 Anos da Miso Music Portugal, p. 140. Lisboa, 2025.]

«(…) falando de rádio, já vai longa e bem profícua a lista de programas realizados pela Miso Music ou por Miguel Azguime para a Antena 2, ajudando este canal público a atualizar a oferta musical contemporânea ao longo de três décadas, nomeadamente com programas como Música Viva, Arte Electroacústica, Música Hoje ou Música de Invenção e Pesquisa. Uma colaboração bem enraizada que, como as mais saudáveis árvores ou pomares, tem revelado o melhor dos frutos: o desenvolvimento presente e futuro da criação musical.»
[João Almeida, Fazer com que a música continue viva: A Miso Music e a rádio. Em: Sentem Sem Som Cem Sons Sempre — 40 Anos da Miso Music Portugal, p. 150. Lisboa, 2025.]

«(…) é de particular interesse a relação que pode ser estabelecida entre os conceitos de pós-ópera e teatro composto e o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo Miso Ensemble, sobretudo no contexto do conceito/projeto Nova Op-Era (New Op-Era). Miguel e Paula Azguime decidiram introduzir um novo conceito de forma a situar as suas próprias reflexões sobre o tema. Com a Nova Op-Era, Miguel e Paula Azguime apontam para a inevitabilidade e necessidade de um trabalho colaborativo e interdisciplinar, baseado na produção de material original, seja a música, a cenografia, a dramaturgia teatral e/ou o texto.»
[Andreia Nogueira, Uma nova era para a ópera?. Em: Sentem Sem Som Cem Sons Sempre — 40 Anos da Miso Music Portugal, p. 159. Lisboa, 2025.]

«Hoje chamam-nos pioneiros, visionários, resistentes. Nós sabemos apenas que fomos e continuamos a ser convictos e persistentes. Que o palco sempre nos exigiu entrega total. Que cada peça, cada festival, cada som gravado ou inventado foi e será sempre uma afirmação de liberdade.»
[Paula e Miguel Azguime, Continuação.... Em: Sentem Sem Som Cem Sons Sempre — 40 Anos da Miso Music Portugal, p. 237. Lisboa, 2025.]

Texto a partir da introdução ao livro, Sentem Sem Som Cem Sons Sempre,
intitulada Este livro aqui presente...
de Pedro Boléo, Maria da Paz Carvalho e Jakub Szczypa.

NOTAS DE RODAPÉ
1 Verso retirado do poema/libreto de Miguel Azguime para a ópera A Laugh to Cry.

 

 

 

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