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Ângela da Ponte


Questionário / Entrevista

PARTE I - raízes e educação

Como começou para si a música? Onde identifica as suas raízes musicais? Que caminhos a levaram à composição?

Antes de mais gostaria de agradecer ao mic.pt pelo convite para realizar esta entrevista.
A música começou para mim de uma forma bastante natural, visto ter crescido no seio de uma família que se dedicava a várias actividades culturais. Mas devo dizer que o meu pai sempre foi uma influência bastante forte nesse campo. Cantava para me embalar e cantávamos em festividades e em convívio familiar. Portanto, a música fazia parte do nosso dia a dia. Após ter regressado dos EUA o meu pai ofereceu-me um violino e a partir daí ingressei no Conservatório de Ponta Delgada aos 5 anos de idade para estudar o instrumento. Até aí nunca tinha tido contacto com a música clássica e nesse sentido foi uma constante descoberta saber que havia tanta música diferente.
As minhas raízes musicais foram, em grande parte, adquiridas no Conservatório onde senti que tinha toda a liberdade para explorar não só a música erudita mas igualmente outras linguagens a que fui exposta através de intercâmbios com orquestras, workshops, seminários, e o repertório dado nas disciplinas de instrumento e Análise e Técnicas de Composição.
Recordo-me que gostava muito de criar. E lembro-me que uma vez, numa aula da primária, a professora tinha pedido para inventarmos uma melodia para uma dada letra. Espontaneamente surgiu... é claro que na altura não fazia ideia o que era compor nem que isso viesse a tornar-se na minha profissão, mas na altura senti uma enorme satisfação ao ter criado música. Mais tarde a frequência da disciplina de Análise e Técnicas de Composição (na altura leccionada pela professora Ana Paula Andrade) representou para mim uma certeza. Fascinava-me cada aula. Ouvir e saber mais sobre a forma como se “construía” os sons, e conhecer várias linguagens conduziram naturalmente à paixão pela composição.

Que momentos da sua educação musical se revelaram de maior importância para si?

Acima de tudo um forte apoio familiar. Penso que sem isso, nunca teria tido a liberdade e coragem para seguir música. Depois claro, a passagem pelo Conservatório de Ponta Delgada, e como já referi a frequência das aulas de Análise e Técnicas de Composição que provocou um maior interesse na composição. Mais tarde a Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo, no Porto, onde desenvolvi uma prática exaustiva, desde a música instrumental até à música electrónica, tendo a oportunidade de estudar com vários compositores importantes da actualidade: Fernando Lapa, Eugénio Amorim, Carlos Guedes, Dimitris Andrikopoulos, Klaas de Vries, Magnus Lindberg. E como ainda tenho um longo caminho a percorrer, actualmente continuo os meus estudos de composiçãoo na Universidade de Birmingham com os professores Jonty Harrison e Michael Zev Gordon.

PARTE II - influências e estética | linguagem e prática composicional

Que referências assume na sua prática composicional? Quais as obras da história da música e da actualidade mais marcantes para si?

São muitas as referências... que difícil ter de escolher...
Para além do treino e conhecimentos adquiridos no Conservatório, tive alguma influência do rock/pop dos anos 60, 70 e 80. Nomeadamente uma das bandas preferidas do meu pai – os Beatles. Outra referência impossível de não referir: J. S. Bach que vejo sempre como um modelo a seguir. Depois claro, os clássicos W. A. Mozart, L. Van Beethoven. Duas obras que me marcaram bastante e que sinto como uma influência acentuada na minha música: Sagração da Primavera de I. Stravinsky e Noturnos de C. Debussy, ambas obras para orquestra. Mais tarde, obras como Amériques de E. Varèse surpreenderam-me não só pelo uso excessivo da percussão mas também pela utilização de instrumentos não convencionais (como por exemplo uma sirene) e a exploração desses instrumentos num contexto sinfónico. É uma obra cheia de surpresas e experiências sonoras, e isso para mim é essencial numa narrativa. É o que faz prender o ouvinte. Destaco também O. Messiaen e a Sinfonia Turangalila, John Cage, I. Xenakis, G. Ligeti, T. Takemitsu, J. P. Oliveira, M. Lindberg e mais recentemente estou a redescobrir L. Berio na medida em que os meus interesses actuais vão de encontro com algumas obras de Berio e na utilização de temas tradicionais, algo que me fascina neste momento na procura de uma identidade pessoal e da influência da cultura açoriana na minha música.

Podia descrever o processo subjacente à sua prática composicional? Escreve a partir de uma ideia-embrião ou depois de ter estruturado uma forma global da música?

Normalmente a minha música escreve-se a partir de uma ideia metafórica / simbólica. O conceito baseia-se sempre numa narrativa que é escrita antes de elaborar o mundo sonoro e que me ajuda na criação da forma global da música e do discurso musical. A partir daí preocupo-me mais com o sentido gestual (numa interpretação pessoal da ideia metafórica), que depois será traduzido em valores rítmicos, escolha de estruturas harmónicas / melódicas, timbre e articulações.

Há quem diga que a música, devido à sua natureza, é essencialmente incapaz de exprimir qualquer coisa, qualquer sentimento, atitude mental, disposição psicológica ou fenómeno da natureza. Se a música parece exprimir algo, é apenas uma ilusão, uma metáfora e não realidade. Podia definir, neste contexto, a sua postura estética?

Sim, tudo se processa nos nossos cérebros. Fisicamente o som não tem qualquer propriedade emotiva ou expressiva. É necessário um cérebro para haver essa cognição ou interpretação. Mesmo que não exista, o ser humano sente necessidade em atribuir sentido às coisas, e como tal, cria uma gramática / organização dos elementos que o rodeiam. Podemos verificar isso nas diversas línguas, na pintura e claro na música. Mas no caso da música e das artes plásticas, torna-se ainda mais complexo pois é tudo muito mais abstracto, sendo uma prática sujeita a inúmeras interpretações.
A minha música está longe do conceito de música absoluta. Interessa-me incluir o lado simbólico, os afectos e a escrita de uma narrativa baseada na vida.

Existem algumas fontes extramusicais que de uma maneira significante influenciem o seu trabalho?

Como referi anteriormente, a minha música reflecte a experiência da vida e essa pode vir duma vivência pessoal, em forma de mitologia ou em poesia. Mas também a natureza inspira-me muito, talvez pelo facto de ter nascido e vivido numa ilha onde a paisagem é lindíssima. Correntemente estou a trabalhar em canções sacras e profanas da cultura açoriana onde a temática tanto abrange rituais sacros de defuntos como também o dia-a-dia e canções de trabalho.

Que relação tem com as novas tecnologias e como estas influenciam a sua maneira de compor, e também a sua linguagem musical?

Não dependo exclusivamente da tecnologia, mas esta tem sido uma grande ferramenta na produção de resultados sistemáticos que de outra forma seriam mais morosos obter. Também ajuda-me na exploração de possíveis novos resultados no que concerne à forma, estruturas harmónicas e rítmicas; análise do espectro sonoro e a sua manipulação na procura de sonoridades diferentes que possam ser interessantes aplicar, por exemplo, na orquestração.

PARTE III - presente e futuro

Quais são os seus projectos decorrentes e futuros? Podia destacar uma das suas obras mais recentes, apresentar o contexto da criação e também as particularidades da linguagem e das técnicas usadas?

Neste momento estou a dedicar-me à escrita de várias obras que farão parte do meu projecto de doutoramento. Essas peças têm todas como base o uso de canções tradicionais açorianas, mas igualmente algumas gravações à volta da viola da terra com o intuito de explorar a sua sonoridade e técnica. A peça mais recente que tenho estado a trabalhar é para clarinete em si bemol e electrónica, a pedido do clarinetista Victor Pereira. Esta peça lida como uma narrativa relativamente grande (ca. 18 min.) onde exploro a utilização das fontes originais de uma forma simbólica que me ajuda a projectar a narrativa. A fonte original em questão é uma gravação de um ritual feito por volta do mês de Novembro (mês de culto às almas) por várias ilhas do arquipélago, mas com práticas diferentes de ilha para ilha. É uma peça bastante profunda e dramática devido ao tema. São utilizadas várias técnicas, nomeadamente espectrais (reconhecimento harmónico, distorção e filtragem) tanto na electrónica como no instrumento, análise de intensidades das vozes gravadas, de forma a que possa recolher e manipular essa informação para gerar ritmos de forma algorítmica. Também, através de uma análise auditiva, tento recriar as características peculiares do canto e do sotaque próprio micaelense para o clarinete com o intuito de procurar um discurso musical próprio.

Como vê o futuro da música de arte ou da música de invenção?

Isso é sempre difícil responder... mas o que é facto é que, num momento onde a arte tem cada vez menos apoio financeiro é quando surge com mais força, seja em forma de protesto ou de educação (onde há cada vez mais uma consciência activa nesse campo). Portanto, vai haver sempre um estímulo para que a arte seja praticada em muitos campos. Até já se fala na integração das artes nas empresas de forma a melhorar a qualidade de vida. A meu ver, penso que é e será sempre uma necessidade humana, claro adaptada sempre à tecnologia da era em questão, mas vejo de forma muito positiva a evolução da mesma.

Ângela da Ponte, Fevereiro de 2014
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