Em foco

Igor C. Silva


Questionário/Entrevista

Parte I . raízes e educação

Como começou para si a música e onde identifica as suas raízes musicais?

Igor C. Silva: O facto de existir muita música disponível em casa fez com que naturalmente existisse desde cedo um contacto muito próximo com vários estilos musicais. Aos sete anos surgiu o interesse de experimentar tocar, que ocorreu naturalmente por existirem em casa instrumentos como o piano e a guitarra, que procurava explorar de uma forma espontânea. Estes comportamentos levaram a que os meus pais me inscrevessem numa escola de música, onde comecei a estudar formalmente guitarra clássica, aos 7 anos. Este caminho mais erudito, acabou por ser complementado pela experiência um pouco mais solitária e auto didacta de outros limites musicais, como o jazz, o blues e o rock, práticas musicais nas quais a guitarra tem um papel preponderante. Foram muitas horas de contacto com o instrumento, em experimentação e transcrição de música que até então apenas conhecia como ouvinte, e que passaram a fazer parte do meu léxico musical.

Que caminhos o levaram à composição?

IS: Para além do contacto com o instrumento, surgiu o interesse em escrever música, que naturalmente improvisava, nascendo daí a vontade de a ver representada por uma partitura. Ao mesmo tempo, já no início da adolescência, comecei a ter um contacto sério com a guitarra eléctrica, que me fez interessar ainda mais por universos musicais nos quais a composição e a performance são indissociáveis, como o jazz e o rock. Estive envolvido em vários grupos de jazz e rock experimental, o que naturalmente levou à necessidade de compor para estes grupos, sendo esta, para mim, a forma mais intuitiva de composição, que ainda neste momento preservo bastante. Já a meio da adolescência, comecei a estudar formalmente guitarra jazz, e, ao mesmo tempo, composição, que inevitavelmente se complementaram nos vários projectos que se seguiram até à entrada na Licenciatura em Composição na ESMAE.

Parte II . influências e estética

No seu entender, o que pode exprimir e/ou significar um discurso musical?

IS: Na verdade, creio que a abertura dos limites expressivos e estéticos na criação musical é uma postura imprescindível à sistematização de um discurso musical próprio. A partir do momento em que um compositor procura de uma forma incisiva (por vezes quase obsessiva!) um determinado universo sonoro que lhe aparece como material musical para a sua prática compositiva, é inevitável que o discurso musical ganhe uma nova força. A capacidade de um artista focar a sua atenção criativa constantemente num determinado ponto estético/expressivo, permite uma maturação da sua própria linguagem. A liberdade surge assim como a ferramenta mais importante para que o compositor consiga olhar para a sua música a partir de dentro e não necessariamente a partir de cânones que a prática musical corrente impõe.

Existem fontes extramusicais que de uma maneira significante influenciem o seu trabalho?

IS: Para mim, enquanto compositor, é-me totalmente impossível isolar-me da quantidade massiva de estímulos à qual estamos diariamente expostos. Onde quer que esteja, sou constantemente invadido por tecnologia, ruídos, marketing compulsivo e uma globalização que inevitavelmente me toca enquanto pessoa e compositor. A partir do momento em que um músico ou compositor tem contacto com estes estímulos, nunca mais ouve o mundo da mesma forma, logo é impossível que a música seja a mesma que seria há 100 anos atrás, quando a paisagem sonora era totalmente diferente. O ruído do rádio, de um amplificador a “fritar” ou a possibilidade de ouvirmos música a volumes consideravelmente elevados, influencia directamente a minha prática compositiva. Ignorar estes estímulos, tornando-os completamente inexistentes na minha música, seria ignorar o presente e o mundo onde vivo. Tornaria a minha música completamente descontextualizada da paisagem sonora que nos envolve.
Se olharmos para algumas das minhas peças mais recentes, como o zap_ping_ (2014), para trompete, percussão, electrónica e vídeo, vemos claramente que existe uma ideia obsessiva sobre a cultura televisiva e a forma como este meio de globalização corrói a nossa visão da realidade. O mesmo acontece com You Should Be Blind to Watch TV (2013), para ensemble e electrónica, que tem exactamente a mesma ideia, na qual o universo sonoro caracteriza todo o ruído, compulsividade e o lado quase caricato do universo dos media, com que lidamos diariamente. Por outro lado, em obras como Non”/sense%)8$messages#_! (for a nonsense reality) (2012), para grande orquestra e electrónica, existe também um lado político-social. Pretendo assim criar uma espécie de reflexão sobre a actualidade quase sem sentido em que vivemos, sobre a forma como perdemos subtilmente a noção do real, e como quase se leva as pessoas a uma espécie de insanidade social.

Parte III . linguagem e prática musical

Caracterize a sua linguagem musical sob a perspectiva das técnicas/estéticas desenvolvidas na criação musical nos séculos XX e XXI, por um lado, e por outro, tendo em conta a sua experiência pessoal e o seu percurso desde o inicio até agora.

IS: Desde cedo que a minha música se tornou rapidamente influenciada pelos meios tecnológicos, seja o computador ou instrumentos eléctricos. Esta influência deve-se claramente ao facto de ter estudado guitarra eléctrica, instrumento inerente à manipulação sonora, e de desde sempre ouvir muita música que recorre a meios electrónicos. Portanto, a minha prática compositiva é desde cedo influenciada por ferramentas electrónicas, o que inevitavelmente me levou a escrever essencialmente música para instrumentos e electrónica, desde música solo até grande orquestra. O computador é sem dúvida uma das principais ferramentas no meu processo compositivo, aliado à escrita em partitura, no que diz respeito à escrita instrumental.
A minha música aproxima-se de várias correntes estéticas relativamente à música electrónica, com influência da música concreta, aliada à escrita instrumental. Por outro lado, o uso de electrónica em tempo real tem sido também uma ferramenta extremamente importante para a caracterização estética da minha música, assim como para a definição do universo sonoro no qual me quero inserir.
Existe também uma ligação muito forte, não necessariamente com a estética, mas sim com a técnica espectral. Esta abordagem tem sido um meio de ligação muito importante entre a realidade instrumental e electrónica, sendo o meu objectivo principal, uma junção entre estas duas realidades, criando um só universo sonoro.
Obviamente que é clara também influência de uma certa liberdade interpretativa na minha música, sendo conferido aos intérpretes diferentes graus de indeterminação através da improvisação, muitas vezes interligada com sistemas digitais interactivos, o que permite uma vez mais uma ligação e forte proximidade entre performer e computador.
Por último, e enquanto ouvinte, sempre me interessou a música de certos universos underground, como noise music, glitch, free jazz, etc, que estão presentes na minha música. É assim inevitável que a minha música se comece lentamente a distanciar do universo formal/tradicional erudito, caminhando muitas vezes para universos ambíguos, ambiguidade esta que me entusiasma imenso.

Há algum género/estilo musical pelo qual demonstre preferência?

IS: Tenho-me interessado cada vez mais em vários géneros musicais, que, aparentemente distantes, têm como ponto comum o uso da electrónica e um certo experimentalismo e inventividade, como glitch, IDM, noise, Indie e algum rock alternativo. Relativamente à música que está mais próxima de uma tradição erudita, tenho estado bastante interessado em práticas musicais que estão uma vez mais relacionadas com a música electrónica e recursos audiovisuais. Existem vários grupos e ensembles que estão focados na criação de obras nas quais se conjugam instrumentos, electrónica e vídeo, criando assim objectos artísticos bastante actuais.

No que diz respeito a sua prática criativa, desenvolve a sua música a partir de uma ideia-embrião ou depois de ter elaborado uma forma global? Por outras palavras, parte da micro para a macro-forma ou vice versa? Como decorre este processo?

IS: Geralmente parto de ideias extra-musicais, criando assim elementos que estão de alguma forma relacionados com a temática ou ambiente inicialmente idealizados. Estes mesmos elementos são, normalmente, recriados electronicamente, o que faz com que a electrónica surja quase sempre numa fase mais inicial do que a escrita instrumental. Desta forma, os pequenos elementos criados através dos vários estudos electrónicos que desenvolvo para uma peça, ganham cada vez mais importância, influenciando progressivamente a escrita musical. É nesta fase que planeio a forma da obra, conjugando os vários materiais musicais, quer do ponto de vista electrónico, quer do ponto de vista performativo.

Como na sua prática musical determina a relação entre o raciocínio e os “impulsos criativos” ou a “inspiração”?

IS: Pretendo sempre conservar um lado impulsivo e espontâneo na minha música. Em primeiro lugar, porque o próprio acto em si torna-se extremamente prazeroso. Em segundo lugar, porque o resultado musical é geralmente mais transparente e claro, transmitindo de forma mais directa a minha ideia musical.
No entanto, apesar de tentar guiar-me por uma certa impulsividade, esta fase compositiva é essencialmente uma fase inicial, na qual, através da improvisação, quer em instrumentos quer na electrónica, encontro os elementos basilares das obras. Contudo, é importante uma maturação do material após esta fase impulsiva. Esta maturação é obviamente conseguida através de uma reflexão e de uma depuração atenta. Ainda assim, apesar deste processo de reorganização do material, tento sempre conservar a mesma impulsividade e espontaneidade, através das quais estes elementos surgiram.

Que relação tem com as novas tecnologias, e em caso afirmativo, como elas influenciam a sua música?

IS: Para mim, é completamente impossível dissociar a composição da evolução tecnológica. Se olharmos para o passado, a composição sempre evoluiu paralelamente à evolução instrumental. Pessoalmente, penso que é perfeitamente natural e quase obrigatório o uso das ferramentas que estão neste momento a ser desenvolvidas e que tanto caracterizam o universo sonoro no qual vivemos em pleno século XXI. Estas ferramentas permitem-me chegar a resultados expressivos e estéticos, que, de outra forma, seriam totalmente inalcançáveis. O uso constante de amplificação, instrumentos eléctricos, electrónica e vídeo, fazem parte da realidade tecnológica que uso constantemente nas minhas obras.

O experimentalismo desempenha um papel significante na sua música?

IS: Sem dúvida. Para mim compor é procurar, e, uma das formas de encontrar o som, a expressividade e a estética que se pretende, é, do meu ponto de vista, atingido através da experimentação. É muito comum no meu processo compositivo experimentar constantemente técnicas, sons e abordagens instrumentais diferentes, directamente nos próprios instrumentos, assim como experimentar e testar diferentes relações interactivas entre instrumentos e electrónica. Passo várias horas a tocar, improvisar e gravar sobre elementos musicais, para mais tarde usar e manipular electronicamente, conseguindo desta forma perceber a validade e o interesse de cada um, obtendo assim uma distância neste julgamento. Desta forma a escrita instrumental nunca se dissocia da escrita electrónica, havendo muitas vezes uma relação de síntese entre ambas as realidades.

Quais as obras que pode considerar como pontos de viragem no seu percurso?

IS: Em from underground_03 (2011), para ensemble, electrónica e vídeo, explorei pela primeira vez de forma aprofundada a relação entre um grande ensemble e electrónica, por forma a que a parte digital fosse o mais performativa possível. Para além desta questão puramente técnica, é uma das primeiras peças na qual a relação entre electrónica e ensemble é atingida através de várias técnicas espectrais de síntese e ressíntese, criando assim uma forte fusão entre instrumentos e electrónica, abordagem esta que se tornou bastante comum nas seguintes obras.
Em zap_ping_ (2014), para trompete, percussão, electrónica e vídeo, exploro uma vez mais a relação entre instrumentos e vídeo. No entanto, é a minha primeira peça na qual uso vídeo em tempo real, criando assim uma forte relação entre a imagem dos performers e a imagem gerada pelo vídeo. Novamente, os meios usados nesta peça começaram a influenciar grande parte da música que foi escrita após a composição desta obra. É também uma obra extremamente importante para mim devido ao uso da electrónica de uma forma ainda mais independente do que o que tinha sido usual anteriormente, quase como se a electrónica fosse um terceiro performer, acrescentado a este duo. A electrónica começa a caracterizar-se cada vez mais pelo universo do glitch e do noise, no qual passei a estar cada vez mais inserido. Técnicas à parte, é uma obra na qual a mensagem é veiculada de forma extremamente clara e directa, sem rodeios nem falsas poesias. Este lado cru e directo passou a ser cada vez mais importante para mim, influenciando a minha estética a partir daí.

Parte IV . presente e futuro

Quais são os seus projectos decorrentes e futuros?

IS: Recentemente acabou de ser editado um CD, Press the Keys . Frederic Cardoso . Clarinet & Electronics PROJECT, na qual está presente a minha obra Frames #87 (2011), para clarinete, electrónica em tempo real e vídeo, a partir da qual estão a ser realizados vários concertos de apresentação. Este CD, do clarinetista Frederic Cardoso, apresenta obras para clarinete e electrónica, com especial atenção para a música contemporânea portuguesa.
Ainda em Julho de 2015, estive em Residência Artística no LEC – Laboratório Electroacústico de Criação da Miso Music Portugal, no qual trabalhei durante três semanas numa obra para flauta, electrónica em tempo real e vídeo em tempo real, intitulada Poporn, para a flautista Tatiana Rosa, que será estreada em 2016.
Ainda relativamente a edições discográficas, terminei recentemente uma nova obra para saxofone barítono e electrónica intitulada Numb (2015), para o Henrique Portovedo, que será editada num novo CD a ser gravado ainda em Novembro/Dezembro de 2015. Estão também agendados vários concertos com esta peça, nomeadamente em Setembro próximo em Aveiro, em Outubro em Bruxelas e em Fevereiro de 2016 na Casa da Música, para apresentação do CD.
Estou neste momento a terminar uma obra para guitarra eléctrica, electrónica e vídeo em tempo real, intitulada Slowmob, encomendada pelo guitarrista Gil Fesch, que será estreada em 2016.
Para além de estar neste momento envolvido no Mestrado em Live-Electronics no Conservatório de Amesterdão, estou a iniciar um projecto de longa duração para uma ópera multimédia, que será estreada algures em 2017/2018.
Por fim, existem vários concertos agendados com música minha a decorrer durante o próximo ano.

Poderia destacar um dos seus projectos mais recentes, apresentar o contexto da sua criação e também as particularidades da linguagem e das técnicas usadas?

IS: Na obra Slowmob, composta para o guitarrista Gil Fesch, pretendo criar uma abordagem ao universo da guitarra eléctrica, que, embora esteja directamente relacionada com a escrita idiomática para este instrumento (que naturalmente se relaciona com a cultura do jazz e rock), aborda este instrumento de uma forma bastante experimental, na qual existe uma relação entre performer e instrumento, quase semelhante à percussão. É uma obra na qual a coexistência entre performer e computador está totalmente interligada no que diz respeito ao timbre e ao gesto, fazendo com que ambas as realidades estejam constantemente sobrepostas, sendo por vezes difícil distinguir quais as partes instrumentais e quais as partes digitais. Desta forma, a obra ganha uma força expressiva e densidade muito grandes, permitindo que flutue entre universos estéticos que vão desde o experimentalismo contemporâneo até ao noise music puro.
Uma das grandes preocupações desta obra foi sem dúvida tentar criar um ambiente que estivesse extremamente ligado ao lado quase mecânico que existe na electrónica e que naturalmente gravita para a parte instrumental, criando assim também uma relação muito forte com o vídeo em tempo real. Para esta peça, é usada uma webcam que capta a acção das mãos e dos vários objectos usados para tocar guitarra eléctrica, espelhando assim de forma clara todos os movimentos subtis que o performer executa sobre o seu instrumento.
A junção do ambiente sonoro com a imagem criada através da manipulação em tempo real da figura do performer, cria um ambiente que nos faz relembrar certas práticas underground, o que, naturalmente, se torna numa característica cada vez mais importante na minha música, fugindo a um lirismo exacerbado que em nada se relaciona com os sons que nos rodeiam diariamente.
É uma obra que procura reflectir sobre a forma como a multidão, as pessoas, as massas sociais se tornam cada vez mais apáticas e deixam de pensar por si próprias.

Agosto de 2015, Igor C. Silva
© MIC.PT