Em foco

David Miguel


Questionário / Entrevista

Parte I · raízes e educação

Que caminhos o levaram à composição?

David Miguel: O factor mais determinante talvez tenha sido um interesse que sempre tive pela compreensão da música, procurar saber os segredos na conjugação de sons. A aprendizagem num contexto formal foi absolutamente determinante para relacionar os sons com a explicação teórica. Sempre gostei de pensar sobre as coisas, reflectir, compreender, analisar... gosto de ver para lá da perspectiva óbvia, da posição dominante. Ser instrumentista nunca foi um objectivo. Gosto mais do mundo da composição e da teoria da música.

Parte II · influências e estética

Que referências do passado e da actualidade assume na sua prática musical?

DM: Tenho muito interesse pela polifonia renascentista e pelas grandes obras coral-sinfónicas do Classicismo e do Romantismo. Admiro a subtileza dos Lieder e o pensamento sistemático de diversos compositores do Séc. XX. Tudo o que seja pesado capta a minha atenção. A minha música não tem de soar a nenhuma destas influências em particular, nem a uma mistura de tudo isto. São, porém, processos e atitudes composicionais com que me identifico.

Existem fontes extra-musicais que de uma maneira significante influenciem o seu trabalho?

DM: Sim, principalmente poesia. Na poesia encontra-se uma liberdade literária com imenso potencial para trabalhar em música. Aprecio particularmente o desafio de encontrar meios de, através da técnica, descrever ou representar, por exemplo, histórias ou emoções.

Além disso, há temas que estão sempre presentes e têm mais a ver com a minha personalidade. A morte, o horror, a dor, o amor, o lamento, estão sempre presentes seja de forma literal ou implícita, digamos, uma permanente presença do obscuro e do sombrio. Aprecio paradoxos como a obscura luminosidade, o mórbido belo, o peso libertador. Porém, sem cair em misticismo bacoco, espiritualismo insípido ou a vulgar dicotomia Deus e o Diabo. É muito mais elevado que isso.

Espero que vão surgindo mais oportunidades para trabalhar estas temáticas. É comum as pessoas julgarem estes assuntos como "estranhos", "mórbidos", "tristes", "depressivos", mas isso é um mecanismo de defesa do ser humano. Para mim, são temáticas fundamentais cuja utilização pode ser realizada de forma séria, esteticamente evoluída e tecnicamente desafiante. É nesse caminho que me tenho definido e não vou sair dele só para agradar ou para entrar no circuito dominante. É isso que me interessa explorar na composição.

No contexto da música de arte ocidental, sente proximidade com alguma escola ou estética do passado ou da actualidade?

DM: Sim, com a Nova Simplicidade. Assenta em parâmetros técnicos cujo enorme potencial reside na sua singeleza. Ao longo dos anos fui explorando a dimensão expressiva das técnicas que definem esta corrente, em particular (claro) de Henryk Mikołaj Górecki, John Taverner e Arvo Pärt. Nem sempre com a plena consciência do que usava, mas tenho vindo cada vez mais a encontrar o modo como quero concretizar a sua articulação com outros processos que utilizo.

Acredito que quando se ouve alguma obra minha (embora não todas) existe um traço qualquer de linguagem comum. É por isso que não me interessa ser uma espécie de "mestre de experimentação de técnicas". Não. Eu sei exactamente ao que quero soar e o que quero dizer ao compor, uma linguagem comum que é, no fundo, o reflexo de uma mistura estética e técnica.

O que entende por "vanguarda" e o que, na sua opinião, hoje em dia pode ser considerado como vanguardista?

DM: Hoje em dia creio que sejam os movimentos que trabalham, principalmente, na relação entre o ser humano e a máquina, em particular a autonomia da máquina, o desenvolvimento da inteligência artificial ou os cyborgs e como se irão relacionar com a forma como criamos, praticamos e usufruímos de música. Vamos continuar a reproduzir o repertório erudito da forma “tradicional” mas haverá novas linguagens. O que muda é o próprio ser humano e, com isso, a criação e fruição musical. Não concordo com a expressão "já está tudo inventado". A História ensina que cada época detém traços comuns identificáveis e profundamente relacionados com o contexto social e artístico em que se insere.

Parte III · linguagem e prática musical

Caracterize a sua linguagem musical sob a perspectiva das técnicas / estéticas desenvolvidas na criação musical nos séculos XX e XXI, por um lado, e por outro, tendo em conta a sua experiência pessoal e o seu percurso desde o inicio até agora.

DM: A minha linguagem musical tem-se modificado ao longo dos anos, mas principalmente nos últimos sete ou oito anos. Antes tinha mais tendência para experimentar como trabalhar determinada técnica. Nos últimos anos, tenho mais tendência para aperfeiçoar a integração e interacção das técnicas, linguagens e estéticas que mais aprecio. No ensino da composição é-se incitado a experimentar diversas técnicas e considero isso positivo. Considero também que, depois da formação, não se deve ter receio de escolher um caminho diferente. Por exemplo, não aprecio particularmente o trabalho em música electroacústica mas fez parte das minhas "dores de crescimento" composicionais e ainda bem. Parece-me que é um percurso normal: conhecer, experimentar, escolher e evoluir.

Há algum género / estilo musical pelo qual demonstre preferência?

DM: Sem sombra de dúvida, o Metal. Do ponto de vista técnico é imensamente diversificado. As pessoas associam o Metal a "tipos aos berros", "barulho" e a "música pesada". Ora, eu gosto – muito – de música pesada e acho que na música erudita também existe música pesada. Esse "peso" não é apenas uma questão tímbrica – guitarras e berros – mas sim expressiva. Parece-me muito redutor limitar a audição de um género apenas a aspectos tímbricos.

No Metal podemos encontrar grandes vozes líricas, bandas com uma sofisticada abordagem à forma, escalas diversas e também quem misture estéticas muito diferentes com sucesso. Devin Townsend é um exemplo, pois engloba Black Metal e Progressive Metal com Rock e Coral-Sinfónico. Elend foi um dos fenómenos que mais me apaixonou porque conseguiram juntar tudo organicamente numa sonoridade única, nitidamente em ruptura com a concepção tradicional do género. Cradle of Filth construíam os temas com uma riqueza lírica e invulgar concepção operática da forma enquanto que outras bandas como Rammstein ou Oomph! representam o Lied pesado dos tempos modernos. Podia dar muitos mais exemplos e passar horas a explicar os motivos para esta minha paixão. Hoje em dia há muita gente no meio realmente eclética e também quem cria com clara noção da teoria por trás da composição.

Porém, evidentemente, há sub-géneros do Metal que são efetivamente só gritos e outros que devem ser observados sob outra perspectiva. Não me identifico muito com a parte social do meio mas isso tem mais a ver com a minha própria personalidade em questões de base. Além dos óbvios estudos sociológicos, encontramos diversos estudos publicados que se debruçam sobre parâmetros técnicos. É um género muito rico, muito mais interessante que todos os outros géneros do que podemos incluir na (academicamente) dita Música Popular.

No que diz respeito à sua prática criativa, desenvolve a sua música a partir de uma ideia-embrião ou depois de ter elaborado uma forma global? Por outras palavras, parte da micro para a macro-forma ou vice versa? Como decorre este processo?

DM: Depende principalmente se estiver a compor com algo externo, como um poema, ou não. Para trabalhar poesia é necessário ter uma noção bastante sólida da macro-forma de uma peça. Gosto, por exemplo, da noção formal que os madrigalistas usavam, conjuntos de pequenas imagens sonoras do poema. Mesmo assim, acredito na necessidade de unidade e coesão do material e para isso muito contribui uma "ideia-embrião", uma solidez motívica independente de factores externos.

Como na sua prática musical determina a relação entre o raciocínio e os "impulsos criativos" ou a "inspiração"?

DM: Não acredito na inspiração nem em impulsos criativos. Detesto particularmente a mistificação da composição como se fosse alquimia ou magia. Não. É tudo técnica e conhecimento ao serviço do que pretendo transmitir. Aquilo que a vox populi chama de inspiração, poderá eventualmente ser melhor explicado como um conjunto de influências, circunstanciais ou não, que acabam por determinar o processo de composição. Já os "impulsos criativos" também pouco me atraem. Por exemplo, compor uma obra impulsionada por um acontecimento trágico contemporâneo não me cativa. Prefiro basear-me em aspectos mais intemporais e estruturais.

Qual a importância do espaço e do timbre na sua música?

DM: Eu gosto muito daquele "meme" do Batman e do Robin, em que este diz "Sou um artista conceptual..." e leva logo uma estalada do Batman que diz "Cala-te, não sabes é compor". Acho que acontece com muita frequência ouvir-se música que trabalha bem o espaço e o timbre mas não é mais que uma colecção de momentos bonitos / interessantes desarticulados entre si. Para mim o parâmetro principal é a Forma. É a forma que define os grandes compositores. Se calhar está subentendido que um compositor tem de saber trabalhar a forma, mas tenho impressão que se a pergunta fosse "qual a importância da forma na sua música", as respostas seriam surpreendentes... Portanto, quanto ao espaço, procuro compor sem demasiadas restrições espaciais, de modo a pontenciar a reprodução das obras por diferentes grupos independentemente do local; quanto ao timbre, faz parte dos parâmetros fundamentais a considerar em qualquer obra. No entanto, discordo que um compositor contemporâneo só o seja verdadeiramente se escrever meia dúzia de obras não convencionais e cheia de técnicas estendidas só para parecer arrojado e vanguardista. Desconfio quase sempre disso pois "cheira-me" a coisa insípida e sem consistência se for muito bem espremida. O trabalho tímbrico, de certa forma, "vulgarizou-se" e com isso veio a sensação de que basta juntar uns timbres e... "magia!". Trabalhar bem o timbre, integrar bem aspectos tímbricos não convencionais com sonoridades mais tradicionais, requer uma boa dose de reflexão estética.

O experimentalismo desempenha um papel significante na sua música?

DM: Depende do que considerarmos experimentalismo. Misturar a linguagem do Metal com a Nova Simplicidade é experimentalismo? Se não, porque não? Em qualquer caso, não componho a pensar em "experimentalismo". Prefiro pensar em exploração de linguagens sem estar propriamente preocupado em romper convenções ou tradições artísticas.

Quais as obras que pode considerar como pontos de viragem no seu percurso?

DM: Uma das minhas primeiras obras , Scordabasso (2004), para quarteto de contrabaixos. Também Amnis (2010), estreada pela Orquestra Gulbenkian, que me mostrou precisamente os caminhos que não queria seguir. Mais recentemente, obras corais como O Silêncio (2013), Soneto do amor e da morte (2014) e Sorrow came and wept (2018).

Parte IV · a música portuguesa

Tente avaliar a situação actual da música portuguesa.

DM: Depende muito de qual o ângulo que se escolhe para avaliar. Se compararmos com uns 50 anos atrás, estamos muito melhor. Se fizermos uma relação entre as alterações no ensino e a qualidade dos músicos, da música, etc., estamos francamente melhor. Se olharmos para o assunto relativamente à democratização da cultura, estamos melhor.

Se a pergunta for "podíamos estar melhor?", a resposta é "sim, claro". Mas eu acho que fazer melhor é sempre possível, por isso não tenho uma visão derrotista, pessimista ou moralista sobre o assunto. Não gosto que se diga que Portugal está sempre atrasado ou que "é o povo que temos". Critica-se muito mas faz-se pouco. Reage-se muito e pensa-se pouco. Aquele estilo "não é nada comigo, não quero saber" incomoda-me bastante. A iniciativa e a capacidade para transformar o próximo está nas nossas mãos como artistas (e como agentes educativos, não esquecer), sem protagonismos e sem megalomanias. É no nosso raio de acção que podemos fazer a diferença e, pouco a pouco, fazer, por exemplo, com que as pessoas vão mais aos concertos pela música do que aos festivais da moda "pela experiência", fazer ver o valor dos fenómenos, ensinar a apreciar, etc.. Com os anos aprendi a compreender muito melhor o contexto dos fenómenos e a observar contributos multifactoriais para o seu desenvolvimento. Aprendi a ser moderado e ponderado. A música portuguesa está bem, é boa, e continuará sempre a padecer dos mesmos males e a valer-se das mesmas qualidades: poucos recursos financeiros mas uma capacidade inventiva de fazer muito com pouco; uma escala reduzida mas sempre com individualidades de dimensão mundial; a imutável periferia mas uma rede de contactos que mais nenhum país tem. Podemos melhorar, isso sim, em três aspectos fundamentais: organização, rigor e eficiência. Ah!, e valorizar o trabalho das pessoas, dar expressão remuneratória ao trabalho artístico. Obviamente.

No seu entender é possível identificar algum aspecto transversal na música portuguesa da actualidade?

DM: Sim. Não somos a cauda da Europa. Temos escassez de meios mas não temos escassez de recursos humanos. Nós somos bons. Os portugueses (ou os que fazem de Portugal a sua casa durante décadas), são mesmo bons. Temos alguns traços de personalidade / portugalidade que ajudam a perceber algumas idiossincrasias, aparentes paradoxos, mas isso também faz parte de nós.

Do ponto de vista estritamente musical, acho que nos últimos 20 anos houve mudanças estéticas. Já não há uma estética (ou um conjunto hermético) dominante. Há espaço para quem compõe numa linha mais cinemática, para quem compõe música mais experimentalista, para vanguardas e conservadorismos. O problema está nos círculos de poder. Quem executa as encomendas provavelmente vai atrás "do nome da moda". Não tenho dúvidas que há, como eu, muitos compositores que são menos tocados ou sequer chamados para as "redes principais" porque não estão "na moda".

Nunca tive uma obra tocada na Casa da Música e isso pouco me interessa. Embora eu escreva muito para coro, os principais coros do país não me contactam para fazer encomendas e isso tem uma só explicação: o carácter. Os músicos, geralmente, gostam muito daquele carácter "porreiro", do "amigalhaço", etc., gostam de simpatizar, de confraternizar, tudo entre amigos. Eu não gosto de aparecer, não tenho necessidade nenhuma disso, não ando constantemente a partilhar fotografias do concerto aqui, da gravação ali, "aqui estou eu com esta malta porreira, esta gente boa", ou seja, a construir uma imagem artista-social. Não sou aquela pessoa com o carácter predominante e comum entre os músicos (que existe), não tenho uma personalidade convencional, não crio imediata empatia com as pessoas e isso reflecte-se nas oportunidades que vou tendo. Sem dramas, sem resignações. É apenas factual e vivo bem com isso.

Ter o nome na praça, estar nos círculos principais, uma espécie de "cair em graça" de meia dúzia de pessoas influentes e faz com que o resto vá aparecendo por consequência. Ora, eu não necessito disso, não tenho necessidade de ser falado. São as pessoas com quem trabalho todos os dias a quem me dedico e que podem contar sempre com a minha disponibilidade. Abraço as novas pessoas com quem me cruzo e tenho a felicidade de ir ganhando experiências artísticas e educativas de grande valor, mas não me movimento por interesses, são-me indiferentes.

Não tenho dúvidas de que a minha música é (pelo menos) tão boa como a de muitos compositores que estão mais "na berra". Eu não entro em concursos de composição, não gosto do princípio porque tenho muitas críticas aos métodos de jurado (não aos júris, atenção). Também não ando a pedir para ser tocado ou para ter encomendas. A minha música está aí, está disponível vou-a / vai-se promovendo de várias formas e pega-lhe quem quiser. Tenho um quarteto de cordas que é bem melhor do que muito lixo-pseudo-vanguarda que se ouve por aí, mas não é tocado porque eu não tenho "nome na praça". Os principais quartetos do país não o tocam simplesmente por isso, porque não apareço ou por outra razão qualquer. Duvido que a razão seja, em abstracto, a específica qualidade técnica ou estética da peça. Se for eu a enviar um e-mail, provavelmente não obtenho resposta ou nem sequer consideram. Mas se for através de um intermediário conhecido, um padrinho, aí a coisa muda de figura. Esta situação não é pessoal, é universal. São imensos os compositores portugueses que conheço que são geniais mas que não são muito tocados ou pelo carácter, ou por não terem "caído em graça" nos circuítos principais.

Outra explicação é a relação com o ensino. Eu levo o ensino a sério, não vou só "dar umas aulas". Tenho também preocupações e interesse sobre o sistema educativo e mantenho actividade em alguns projectos de natureza não composicional, logo, é normal que a carreira artística tenha menor expressão. Resumindo, eu gosto de compor mas não é a minha actividade principal, nem sequer quero que seja.

Também levo muito a sério contrariar aquilo que eu chamo "horário non-stop" dos músicos. Os músicos, regra geral, trabalham numa espécie de contínuo, sem parar, é como se nunca pudessem deixar o trabalho na empresa e ir para casa sem pensar nisso. Ora, eu prefiro ter tempo para mim e ter vida fora da minha profissão. É importantíssimo para o bem estar pessoal.

Não estou preocupado com uma "rede de contactos", os famosos "connects". Vou trabalhando com quem se interessa e eu acho interessante. Isto é uma questão universal, não é pessoal, é como em qualquer área profissional: as pessoas com relações pessoais de proximidade tendem, naturalmente, a partilhar actividades profissionais. É o "status quo" das coisas. Toda a gente sabe que é assim e este é o aspecto transversal à música portuguesa, na actualidade e sempre.

Parte V · presente e futuro

Poderia destacar um dos seus projectos mais recentes, apresentar o contexto da sua criação e também as particularidades da linguagem e das técnicas usadas?

DM: Sorrow came and wept (2018), para coro sinfónico e orquestra de cordas. O poema é de Fernando Pessoa (poesia inglesa) e fala de alguém junto do / a qual a própria dor, o lamento, se aproxima e chora. Achei esta imagem profundamente dramática, pesadíssima, mas bela. A linguagem está impregnada de dissonância estranhamente consonante, recorrendo a técnicas da Nova Simplicidade e a uma representação estilizada do Metal. O resultado, para mim, é extremamente pesado e simultaneamente bonito. Deu-me muita satisfação escrever. Creio que é uma peça capaz de rodar salas de concerto nacionais e internacionais, mas para a promover, já se sabe... teremos de voltar a uma das respostas anteriores...

Como vê o futuro da música de arte?

DM: Com expectativa relativamente ao modo como a música e a arte vão reagir ao movimento histórico. A Europa assistiu a cerca de setenta anos de franca expansão a todos os níveis, de melhoria das condições de vida dos cidadãos. Isto é inegável e só por ignorância se pode negar. Porém, estamos a entrar numa era em que os projectos que nasceram no pós-guerra estão sob ataque, em desmantelamento ou descredibilizados. A tensão social está a aumentar e, infelizmente, amplificada. O fenómeno de amplificação da negatividade e insatisfação tem efeitos dramáticos na percepção das conquistas sociais e na focalização nos verdadeiros problemas a resolver. A questão das alterações climáticas é absolutamente central nisto tudo: será o epicentro do regresso e intensificação da segregação, do nacionalismo agressivo, do fascismo (mascarado de coisa progressista), do salve-se quem puder (pagar?). A descredibilização da ciência, que a par da industrialização tornou o Séc. XX no mais próspero de sempre, é assustadora; é incrível ver como, por exemplo, o movimento anti-vacinas é absurdo, senão criminoso. As áreas de pensamento, história e filosofia estão a ser reduzidas a "românticas curiosidades poéticas", substituídas por tudo o que é economia ou informática, entre outras, criando lacunas na capacidade das pessoas compreenderem os fenómenos, interpretarem as mensagens ou desenvolverem uma memória do passado (ao qual não voltar). Não tenho dúvidas que estamos a virar uma década para uma nova era, do Pós-Modernismo para outra coisa qualquer devido ao retrocesso, agora evidente e claramente visível, em áreas centrais para a evolução da humanidade. Por um lado estou curioso em ver como os artistas se vão mover dentro de tudo isto, por outro fico apreensivo com a visão do abismo. A música, a arte em geral, vai seguramente participar nestas batalhas, assumir o seu papel de intervenção, transformação e mobilização, e ajudar a mostrar o melhor caminho.

David Miguel, Abril de 2019
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