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Pedro M. Rocha


“Diria que o caminho mais natural é a música evoluir no sentido de uma maior complexidade de relações acústicas, sem pretender dizer que a arte de hoje é superior à arte de ontem. (...). É óbvio, porém, que nunca se pode fazer a música do futuro. Faz-se sempre a música do presente. Mas com os olhos postos no futuro.”[1] Pedro M. Rocha nasceu em Torres Novas em 1961. Embora desde cedo tenha revelado inclinações musicais só começou a estudar música seriamente aos 16 anos. “Lembro-me de improvisar desde criança. Costumava cantar, fingindo tocar guitarra ao mesmo tempo, segurando um objecto plano nos braços. Ou bater em latas variadas – de metal e plástico – enquanto cantava canções que conhecia e outras que criava no momento”[2], recorda o compositor. Em 1981 começou a frequentar Ciências Geológicas na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa onde estudou Geologia durante 3 anos, tendo obtido uma formação científica que se tornou importante no seu percurso musical. “O que se passou é que, eventualmente, a minha formação científica impregnou, fortemente, os meus primeiros anos de aprendizagem musical académica. Penso que não foi negativo, penso que aprendi imenso, o facto de me ter obrigado a formalizar, de uma maneira extremamente rigorosa, deu-me um certo tipo de escola, mas comecei a aperceber-me que, muitas vezes, as obras menos formalizadas eram aquelas que soavam melhor.” [3] Simultaneamente com Geologia estudou Piano no Conservatório Nacional de Lisboa com Gilberta Paiva e mais tarde com Olga Prats. Em 1982 iniciou estudos de Composição com Christopher Bochmann, prosseguindo-os na Escola Superior de Música a partir de 1986, data em que concluiu o curso de Composição no então Conservatório Nacional. Entre 1982 e 1990 assistiu a diversos cursos e seminários com Jorge Peixinho, Emmanuel Nunes e Christopher Bochmann, entre outros. Em 1986 frequentou os emblemáticos Cursos da Nova Música em Darmstadt e em 1987 realizou um estágio no Gabinete de Música Electroacústica em Cuenca com uma bolsa da Juventude Musical Portuguesa, onde compôs “Dual” para piano e 4 samplers – a sua primeira obra de carácter vincadamente pessoal. “Após uma revisão em 1995, considero «Dual» como a minha 1ª obra pessoal. Para além da improvisação na partitura dos sons electrónicos, a parte de piano contém um determinado grau de abertura – não exactamente improvisação. Penso no entanto que obras abertas constituem um certo tipo de improvisação embora em grau mais pré-determinado.”[4] Em 1990 Pedro M. Rocha concluiu o curso de Composição da Escola Superior de Música e recebeu uma bolsa de aperfeiçoamento artístico da Fundação Calouste Gulbenkian, que lhe permitiu estudar de 1990 a 1994 com Alain Bancquart em Paris. Durante esse período frequentou diversos cursos de informática musical – o estágio SYTER no Groupe de Recherches Musicales sob a orientação de Daniel Teruggi, e o Cursus de Composition et Informatique Musical no IRCAM, onde trabalhou com compositores como Brian Ferneyhough, Tristan Murail, Phillipe Manoury e Jonathan Harvey. Desta época destacam-se as obras “Caminho”, para flauta, trompa e dispositivo electrónico, Pièce pour vibraphone et live electronics e “Cri” para orquestra de flautas. “«Caminho», é uma obra que considero também bastante importante. Existe nela formalização conjugada com bastante intuição e sobretudo existem sons de proveniências extremamente diferentes – não só o universo dos sons instrumentais, como os sons instrumentais que são transformados electronicamente, como os sons concretos utilizados em bruto, ou também transformados. Portanto existe uma panóplia de som relativamente vasta.”[5] Desde 1994 o compositor reside em Lisboa e as suas actividades incluem a de professor em tais disciplinas como Análise e Técnicas de Composição, Coro, Música de Câmara, Improvisação e Orquestração na Academia de Amadores de Música de Lisboa e no Conservatório de Artes de Leiria. Segundo Pedro M. Rocha a educação musical baseada na improvisação controlada é fundamental para abrir os públicos às novas linguagens artísticas. O compositor interessa-se por todas as formas de expressão cultural. Pretendendo investigar as relações entre a imagem e o som tem composto obras acusmáticas em colaboração com o videasta André Sier no tríptico inacabado “To a World Free from...”, bem como “Simbioses” com Ana Carvalho. “Provavelmente não estamos, neste momento, preparados para captar a multi-dimensionalidade destes dois mundos – a imagem com o som. Então porquê fazê-lo? Porque acredito também que a arte é uma maneira de nos fazer evoluir. É uma maneira de nos fazer, não só experienciar aquilo que somos, mas também de alargar as nossas capacidades, alargar o acesso ao nosso eu interior.”[6] Nas obras “To a Free World” para conjunto instrumental e “To a World Free from Beliefs” para conjunto instrumental e sons pré-gravados o compositor não só explora as questões da improvisação, da abertura formal e do contínuo sonoro, mas também, dando-lhes um programa extramusical representado nos títulos, transmite-nos uma parte do seu conceito filosófico, da sua visão do mundo. “As crenças são um mecanismo complexo desenvolvido pelo ser humano. Uma das suas possíveis origens é o da conservação da espécie, permitindo ao indivíduo sobreviver em condições adversas. Porém os seus efeitos colaterais são vastos. O mais evidente é o de nos impedirem de viver plenamente AQUI e AGORA, de usufruir o eterno momento do presente.”[7] Do estilo composicional de Pedro M. Rocha destaca-se a complexidade rítmica e tímbrica patente na utilização de um vocabulário ultra-cromático e pela utilização de microtons e microritmos.[8] Por um lado o compositor interessa-se muito pela música em que a percepção e a interpretação são levadas aos seus próprios limites. Por outro tem também a preocupação de compor obras de execução mais acessível em virtude da sua actividade pedagógica. Em oposição à abordagem racional dos tempos da sua formação musical, nos anos recentes Pedro M. Rocha tem incluído uma componente emotiva na sua postura estética, definindo o som como um meio sensorial e intuitivo. O compositor enfatiza a improvisação como um dos factores mais importantes na sua criação e também na sua actividade enquanto professor. Os processos improvisatórios aplicados ao longo do percurso permitem a abertura criativa e a liberdade da invenção. “A improvisação esculpiu tanto a minha mente como os meus ouvidos para estarem totalmente abertos para o som”[9], explica o compositor e ainda sublinha: “(...) nos anos mais recentes a minha abordagem do som é mais irracional, é mais sensorial, emotiva e intuitiva – isso constituiu em si outra fonte de aprendizagem, (...).”[10]

Lista de Obra

1 - Sérgio Azevedo, “A Invenção dos Sons. Uma Panorâmica da Composição em Portugal Hoje.”, Editorial Caminho, Lisboa 1998, p. 378 2 - Pedro M. Rocha em: www.pedromrocha.com 3 - 4 - Pedro M. Rocha, op. cit. 5 - Miguel Azguime, op. cit. 6 - Ibidem 7 - Pedro M. Rocha – comentário no folheto do CD do Sond’Ar-te Electric Ensemble, Miso Records (mcd 021.09), p. 8 8 - Nancy Lee Harper, “Pedro Rocha” em: “Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX”, direcção de Salwa Castelo-Branco, Círculo de Leitores / Temas e Debates e Autores, Lisboa 2010, p. 1127 9 - Pedro M. Rocha, op. cit. 10 - Miguel Azguime, op. cit.

 

 

 

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