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Clotilde Rosa


“A irrupção criativa de Clotilde Rosa na cena musical portuguesa é simultaneamente atípica e sintomática”[1], escreveu Manuel Pedro Ferreira nas páginas do livro “Dez Compositores Portugueses”. A compositora, harpista e professora “despertou para a composição só por volta dos quarenta e cinco anos de idade”[2] através da participação, enquanto intérprete, no Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, dirigido por Jorge Peixinho, tornando-se numa das individualidades mais importantes no que diz respeito à criação e à divulgação da música contemporânea em Portugal e tendo “na sua base as experiências de improvisação e composição colectivas levadas a cabo pelo GMCL.”[3]

Nascida em Queluz a 11 de Maio de 1930 cresceu no seio de uma família de forte tradição musical, sendo o seu pai o violinista e tenor José Rosa e a sua mãe a pianista e harpista na Orquestra da Emissora Nacional, Branca Belo de Carvalho Rosa. “O meu pai e a minha mãe, realmente foram fundamentais na minha formação, até porque quando eles morreram – era eu muito nova, muito jovem, fiquei aos 10 anos sem eles – enfim, perdurou a sua imagem e eu escolhi música mesmo por causa disso.”[4] "Tudo isto marcou-me muito, bem como a meu irmão. Foi um golpe muito grande no nosso ambiente de sonho, no nosso ambiente de música... os ensaios em casa – o meu pai cantava, a minha mãe acompanhava-o ao piano – os preparativos para os espectáculos, os ensaios no teatro, as idas ao café com os amigos depois dos espectáculos, as óperas a que assistíamos – nas quais o meu pai era o protagonista – os concertos de orquestra dirigidos pelo Pedro de Freitas-Branco...”[5]

Clotilde Rosa teve as primeiras aulas particulares de piano aos dez anos, tendo terminado em 1949 o Curso Superior no Conservatório Nacional de Lisboa com a professora Ivone Santos. Começou a estudar harpa na mesma instituição aos 12 anos com Cecília Borba, finalizando o Curso Completo de Harpa em 1948, sendo este o instrumento a que se dedicou profissionalmente. “Fui forçada a fazer o curso [de piano] e ainda bem, porque me deu umas óptimas bases para a composição (…). Mas hoje até tenho uma certa pena, de ter abandonado um bocado a técnica. Hoje toco muito pouco piano porque nunca mais estudei, mas a harpa sim, instrumento a que me dediquei.”[6]

Recomeçou os seus estudos em 1958, fazendo parte dos Menestréis de Lisboa dirigidos por Santiago Kastner, com quem estudou baixo cifrado aplicado à harpa e interpretação de música antiga. De 1960 a 1963 recebeu bolsas da Fundação Calouste Gulbenkian e do governo holandês para estudar harpa com Phia Berghout em Amesterdão. Em 1964 estudou harpa com Jacqueline Borot em Paris, e realização de baixo cifrado em 1967 com Hans Zingel em Colónia, Alemanha, com subvenções da Fundação Calouste Gulbenkian. “Eu tinha uma formação musical tradicional, no entanto o meu espírito modernista sempre existiu, desde muito novinha"[7], recorda Clotilde Rosa. Mais tarde foi também muito importante, a convivência com o seu irmão, arquitecto, artista plástico e com a sua cunhada Helena Almeida, artista importante e internacionalmente considerada com obras adquiridas por diversos museus, dos mais importantes desde Londres até Nova Iorque.

Foi no verão de 1962 que Mário Falcão lhe propôs tocarem “Imagens sonoras”, uma peça para duas harpas composta por Jorge Peixinho, o que ocasionou a aproximação de Clotilde Rosa a este compositor e ao meio musical português de vanguarda, um contacto fundamental para a sua vida. “Se não fosse Jorge Peixinho, eu creio que nunca teria escrito uma linha. O Jorge Peixinho foi o motor de arranque da música contemporânea em Portugal. (...). [A proposta de Mário Falcão] veio na melhor altura já que, devido a razões de ordem familiar, eu tinha estado um pouco afastada do meio musical.”[8]

Juntamente com Jorge Peixinho, Clotilde Rosa foi uma das primeiras a trazer para o meio musical português a experiência dos famosos cursos de verão de Darmstadt. Em 1963 realizou a primeira das três viagens àquela cidade que se revestiram de uma importância fundamental na sua carreira. O contacto e a experiência com compositores como Pierre Boulez, Mauricio Kagel ou György Ligeti fez surgir novas perspectivas de posicionamento face à música contemporânea. “Isso foi para mim uma revelação extraordinária; era o tempo dos «Momente» do Stockhausen, ouvi obras do Dieter Schnebel, assistia às aulas do Mauricio Kagel... Lembro-me que as «Atmosphères» de Ligeti deixaram em mim uma impressão muito marcante. Assisti a aulas de Stockhausen e de Boulez, ouvi conferências do Michel Butor sobre a modernidade da obra de arte. Também lá estavam Bruno Maderna, Berio, Cathy Berberian, e os irmãos Kontarsky. Fiquei maravilhada com aquele ambiente, que no fundo vinha ao encontro das minhas ansiedades.”[9] Em 1969, ano em que Clotilde Rosa realizou a sua última ida a Darmstadt, foi levada a efeito a obra de Karlheinz Stockhausen, “Musik für ein Haus”, com a participação de Jorge Peixinho.

Durante os anos sessenta Clotilde Rosa pertenceu a um grupo de músicos reunido por Jorge Peixinho, que deu origem em 1970 ao emblemático Grupo de Música Contemporânea de Lisboa. Na continuação do seu interesse pela música antiga, formou, nos fins dos anos setenta, com Carlos Franco e Luísa de Vasconcelos, o Trio Antiqua. A nível orquestral, fez parte da Orquestra Sinfónica do Porto e da Orquestra Sinfónica Nacional, ambas da Emissora Nacional, tendo colaborado com as orquestras do Teatro Nacional de São Carlos e da Fundação Calouste Gulbenkian.

É em 1974, a convite de Jorge Peixinho, que Clotilde Rosa esboça o seu primeiro trecho musical, na obra colectiva “In-con-sub-sequência”, que apresenta as influências de Karlheinz Stockhausen (música intuitiva, improvisação colectiva). Assume-se como compositora em 1976 com a obra “Encontro”, a sua primeira peça não colectiva. Levada à Tribuna Internacional de Compositores de Paris por Joly Braga Santos e Nuno Barreiros, por proposta de Jorge Peixinho, a peça foi gravada na RDP e atingiu o 10.º lugar ex-aequo, entre 60 obras de 30 países. “Há um aspecto engraçado a respeito desta obra: o Jorge Peixinho sempre acreditou muito em mim como compositora, e nessa altura disse ao Joly Braga Santos e ao Nuno Barreiros para levarem a minha obra à Tribuna Internacional de Compositores. Eles não me conheciam a não ser como harpista, e creio que ficaram um pouco surpresos e hesitantes, mas o Jorge Peixinho insistiu muito e a ideia foi para a frente.”[10] Clotilde Rosa obteve também o 1.º Prémio no Concurso Nacional de Composição da Oficina Musical do Porto com “Variantes I” para flauta solo.

De 1987 a 1989 deu aulas de Análise e Técnicas de Composição na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa, transitando para a classe de Harpa de 1989 a 2000. Foi nesta época que foi introduzida, por Clotilde Rosa e pela primeira vez em Portugal, a música contemporânea no programa curricular de harpa. Entre as suas actividades, tem também integrado a Comissão Sectorial da Música Erudita da Sociedade Portuguesa de Autores.

Este ano, a 21 de Abril no Cine-teatro Paraíso em Tomar, o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa dirigido por Christopher Bochmann estreou a peça “Espiral” de Clotilde Rosa. Esta obra resulta de uma encomenda feita por Dr. Lucas Manarte para ser apresentada no Congresso dos Internos de Psiquiatria em Tomar e tenta traduzir num discurso musical alguns quadros clínicos psiquiátricos a partir de fragmentos de poemas / textos de Marta Cristina Araújo, Luís Vaz de Camões, Armando Silva Carvalho, Lucas Manarte e João Rebocho, que sugerem a leitura de estados de “Depressão”, “Obsessão”, “Catalepsia”, “Delírio”, “Maníaco Depressivo" e finalmente “Pânico”. “Transpus para música vários estados psicóticos, escolhidos pelo Dr. Lucas Manarte, que me facilitou a sua compreensão com uma linguagem de acessível assimilação, trabalho que achei muito interessante, mas um desafio difícil de obter por música, nunca antes tentado por mim."[11]

Linguagem musical

“Em relação aos compositores que prefiro, existe em mim um oceano quase infinito, atendendo a que fui executante de orquestra, fonte de grande riqueza sonora, apesar do nosso limitado meio. (...). Por outro lado, e creio que isso foi o mais importante para mim enquanto compositora, as minhas passagens pelos cursos de Darmstadt, ouvindo e assistindo a obras das mais importantes do nosso universo contemporâneo (...) Boulez, Stockhausen, Berio, Maderna, Ligeti, Kagel, Pousseur...”[12] A familiaridade de Clotilde Rosa não só com o repertório clássico e romântico mas também com as técnicas modernas de escrita e os idiomas musicais do pós-guerra, e também a sua presença no único agrupamento nacional que se mantinha em contacto permanente com a música contemporânea europeia, na altura (anos 70 do século XX) em que em Portugal não existia nem acesso a edições e a documentos sobre a música contemporânea nem um enquadramento formativo adequado, permitiram-lhe, “uma vez despertada para a própria potencialidade criativa, uma afirmação extraordinariamente rápida enquanto compositora.”[13]

Clotilde Rosa considera-se actualmente e numa perspectiva alargada, como pós-serialista. Numa era de grande intercomunicabilidade a nível mundial, em que as linguagens se misturam e globalizam, a compositora acredita na ligação e influência do meio em que vive um compositor e na importância das suas raízes. Tendo originalmente uma formação musical tradicional, a sua aproximação à música contemporânea, deu-se através da sua vivência musical e sobretudo da sua experiência como intérprete. No domínio da composição, frequentou por dois anos a classe de Contraponto de Jorge Croner de Vasconcelos, trabalhou Composição com Jorge Peixinho entre 1975 e 1980, de uma forma mais regular; assistiu a aulas de Análise de Álvaro Salazar nos Cursos de Verão do Estoril e trabalhou Instrumentação com Carlos Franco. Apesar da sua apetência para o experimentalismo sonoro, de que são exemplos “As quatro estações do ano” e “Projecto-collage”, nunca se proporcionou trabalhar num estúdio de música electroacústica, sendo a sua obra maioritariamente para voz (tradição e predilecção herdada provavelmente do seu pai) grupos de câmara, grupo de metais, de clarinetes, instrumentos solistas, várias obras para piano solo e orquestra sinfónica. “A partir de «Sonhava de um marinheiro» (1980), a voz de Clotilde Rosa tornou-se progressivamente inconfundível (...), privilegiando a fluidez das texturas contrapontísticas, o cromatismo livre (ainda que serialmente controlado) e um melodismo expressivamente sugestivo, com recurso a diferentes tipos de escrita (frequentemente experimental numa primeira fase, mais pragmática ou ecléctica a partir dos anos 90).”[14]

O catálogo de Clotilde Rosa inclui mais de oitenta títulos: obras de música de câmara (a solo, duetos, trios, quartetos, obras para cinco ou mais instrumentos e também para voz e acompanhamento instrumental), música orquestral (“Ricercari”, 1983/84; “Paisagem Interior”, 2000, ainda inédita apesar de ter sido encomenda do Ministério da Cultura), uma ópera (“Portuguex” ou “O Desfigurado”, 1986/89, anterior encomenda também da SEC nos anos 80 e, infelizmente, também inédita e nunca estreada), teatro e bailado (“Música para Inês I e II”, 1983/86) e também várias peças didácticas. “O facto de ser harpista é particularmente relevante na sua música, na forma em que emprega a harmonia e os instrumentos de cordas (harpa e piano).”[15] O corpo sonoro da sua música, ricamente colorida e repleta de atmosferas evocativas, “possui um forte conteúdo dramático, emocional”[16] e poético que se junta à modernidade de escrita. Clotilde Rosa descreve o material utilizado na construção da sua linguagem como: “vasto, com uma herança de raiz serial muito livre, no emprego de três acordes de quatro sons quase como um fio condutor que habita frequentemente as minhas obras, organizando-me paralelamente, criando pequenas células que fazem aparecer fragmentos temáticos, módulos rítmicos.”[17] Estes três acordes de quatro sons perfazendo, também deste modo, o total dos doze sons, são frequentemente empregues de forma a constituir uma harmonia que se tornou peculiar ao longo da sua produção. Além disso, como escreveu Beatriz Serrão nas páginas da sua Tese de Mestrado, “Clotilde Rosa sente uma afinidade intrínseca pelo movimento coreográfico e pela poesia, procurando traduzi-la por uma gestualidade que, ligada à execução musical, a vai tornar ainda mais significante.”[18]

Actualmente, Clotilde Rosa não obedece a nenhum código estabelecido, utilizando de uma forma livre uma simbiose de todas as técnicas que desenvolveu anteriormente: acordes não consonantes, fragmentos melódicos e clusters; técnicas seriais (motor de desenvolvimento estrutural); pequenas células, muitas delas de apenas dois ou três sons que são ramificadas e aumentadas em estilo imitativo; contraponto; e também alguns aspectos do minimalismo repetitivo presente em algumas das obras que têm fragmentos aleatórios.[19]

Clotilde Rosa no YouTube

"Ricercari(1983/84)

Orquestra Sinfónica de Tóquio dirigida por Naoto Otomo

"O Fabricar da Música e do Silêncio(1987)

Poemas de Armando Silva Carvalho GMCL - Grupo de Música Contemporânea de Lisboa Barítono: Jorge Martins Flauta: João Pereira Coutinho Violoncelo: Jorge Sá Machado Piano: Anne Kaasa

"Amor que mal existe(1992)

Poema: Florbela Espanca GMCL - Grupo de Música Contemporânea de Lisboa Barítono: Jorge Martins Clarinete: Luís Gomes Piano: Anne Kaasa

"Contornos(1998)

Opus Ensemble

"Trio de cordas(1998/99)

GMCL - Grupo de Música Contemporânea de Lisboa Direcção: Carlos Franco

"Complexidades(2001)

Poemas de João Paulo Carvalho Franco Intérpretes: Ana Ester Neves e Francisco Monteiro

"El Vaso Reluciente(2003)

Soneto: Luís Vaz de Camões GMCL - Grupo de Música Contemporânea de Lisboa Direcção: Christopher Bochmann

"Impromptu(2007)

Hugo Queirós – clarinete baixo --- 1 Manuel Pedro Ferreira, “A Reinvenção do Sentimento em «Ricercari» de Clotilde Rosa" em: "Dez Compositores Portugueses. Percursos da Escrita Musical no Século XX", coordenação de Manuel Pedro Ferreira, Lisboa 2007, p. 347 2 ibidem 3 ibidem 4 Entrevista a Clotilde Rosa conduzida por Miguel Azguime; mic.pt, 2004 5 Entrevista a Clotilde Rosa em: Sérgio Azevedo, "A Invenção dos Sons. Uma Panorâmica da Composição em Portugal Hoje", Editorial Caminho, Lisboa 1998, p. 103 6 Entrevista a Clotilde Rosa conduzida por Miguel Azguime; mic.pt, 2004 7 Entrevista a Clotilde Rosa conduzida por César Viana em: Arte Musical, IV Série, n.º 4, Juventude Musical Portuguesa, Lisboa 1996/07, p. 154 8 ibidem, p. 153 9 ibidem, p. 155 10 ibidem, p. 157 11 Clotilde Rosa na nota de programa para a peça “Espiral”, disponível em: Grupo Música Contemporânea Lisboa 12 Entrevista a Clotilde Rosa em: Sérgio Azevedo, op. cit., p. 104-105 13 Manuel Pedro Ferreira, op. cit., p. 347 14 Manuel Pedro Ferreira, op. cit., p 346 e 348 15 Francisco Monteiro, “The Portuguese Darmstadt Generation – the Piano Music of the Portuguese Avant-Garde”, University of Sheffield 2001, p. 258; Tradução para português: Jakub Szczypa 16 Patrícia Bastos, “Rosa, Clotilde”, em: Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, direcção Salwa Castelo-Branco, Lisboa 2010, p. 1148 17 Entrevista a Clotilde Rosa em: Sérgio Azevedo, op. cit., p. 104 18 Beatriz Serrão, “Influências da Performance na Música entre 1970 e 90 em Portugal: Jorge Peixinho, Clotilde Rosa, Eduardo Sérgio”, Universidade Nova de Lisboa 2011, p. 2 19 gmcl.pt/clotilderosa