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Cláudio Carneyro (1895-1963)


Cláudio Carneyro nasceu a 27 de Janeiro de 1895 (no mesmo dia e mês que Mozart). Cresceu num ambiente familiar artístico, sendo seu pai o ilustre pintor portuense António Carneyro. Cláudio Carneyro, filho mais velho, serviu de modelo para os desenhos e pinturas do seu pai, cujos retratos constituem exemplares dos mais transcendentes da sua obra. Vocacionado para a música, aperfeiçoou o seu talento como violinista e compositor. “O toque para a sua carreira musical foi-lhe dado por um seu tio que lhe foi ensinando violino secretamente, com o «propósito de forjar uma surpresa familiar.»”[1]

Estudou a partir dos seus 15 anos no Conservatório de Música do Porto, para onde voltaria em 1922 já como professor de Teoria e Solfejo, após ter aperfeiçoado os estudos de violino em Paris com Bilewski e Jules Boucherit. A partir de 1930, firmou a sua ligação ao Conservatório do Porto como professor de composição tendo assumido, em 1956, a direcção desta instituição.

O êxito alcançado em Paris na apreciação da sua peça para orquestra de arcos, “Prelúdio, Coral e Fuga”, que Gabriel Pierné dirigiu em 1923 e 1925 no Théâtre du Châtelet com a Orchestre Colonne, deu uma nova direcção à sua carreira. Cláudio Carneyro renunciou ao violino para se consagrar exclusivamente à composição tendo trabalhado com professores de reputada mestria, como Charles Widor, em Paris, e, mais tarde, como bolseiro do Instituto para a Alta Cultura, com Paul Dukas, com quem continuou a aperfeiçoar a composição (1935-36).

Das várias incursões ao estrangeiro, salienta-se ainda o curso frequentado nos Estados Unidos da América (1927-29), onde conheceu a violinista Katherine Hickel, que viria a ser sua mulher. Dedicado à escrita musical, apresentou no Porto e em Lisboa, em 1929 e 1932 respectivamente, uma programação de concertos inteiramente dedicada às suas obras: em Fevereiro de 1932 no Teatro de São Carlos com a colaboração de Viana da Mota que dirigiu em primeira audição absoluta os seus três “Poemas em Prosa”. Em plena fase de maturidade, em 1933 no Orphéon Portuense, foi-lhe atribuído o Prémio Moreira de Sá.

Além do repertório para diversas combinações vocais e instrumentais Cláudio Carneyro continuou também a compor e a orquestrar para instrumentos de arco, tendo mesmo fundado uma orquestra de cordas no Porto (Orquestra da Câmara Municipal do Porto) para a qual readaptou um repertório polifónico da autoria de diversos compositores clássicos. Nos anos 40 surgiram algumas das suas obras mais relevantes na sequência de encomendas a si dirigidas pelo Gabinete de Estudos Musicais da Emissora Nacional, como por exemplo a partitura do bailado “Nau Catrineta” e o Quarteto em ré menor.[2]

A 15 de Julho de 1956, em resposta ao convite do governo norte-americano, partiu para uma visita aos principais centros musicais dos Estados Unidos, nessa altura profusos em festivais, tendo tido a oportunidade de se encontrar com Charles Münch, Aaron Copland, William Primrose, Darius Milhaud e Zino Francescatti, entre outros. Em 1962 a Delegação do Porto da Juventude Musical Portuguesa homenageou-o no Teatro da Trindade com um concerto dedicado exclusivamente à sua obra.

Cláudio Carneyro foi agraciado, em 1934, com o grau de oficial da Ordem de Santiago de Espada. Faleceu há 50 anos, a 18 de Outubro de 1963, na cidade do Porto. O espólio da sua obra encontra-se na Biblioteca Municipal do Porto, que editou por ocasião da comemoração do seu nascimento (Março 1995) um catálogo dos manuscritos originais.

A obra

A obra de Cláudio Carneyro distingue-se pela sua diversidade estética, assimilando plenamente inúmeras técnicas e expressões contemporâneas.

O compositor apanhou no despontar do século XX as influências romântico-impressionistas e simbolistas. É incontestável a relevância que a sua obra de canção de câmara assume na história da música portuguesa. Cabe-lhe representar uma época de transição do romantismo para a música moderna, situando-se sobretudo no impressionismo, no simbolismo e no expressionismo.

No que respeita a melodias tradicionais portuguesas, o compositor desejou que perdurassem em estilo sinfónico, compondo assim as “Portugalesas”, datadas de 1949. Este interesse pelo "folclorismo musical" estava, aliás, em consonância com o trabalho de outros autores, influenciados pela recente transcrição de um cancioneiro tradicional por António Joyce. Na mesma altura, colaborou com o Gabinete de Estudos Musicais da Emissora Nacional, ligado ao Emissor do Norte. Testemunhos da sua adesão à importância da música popular / tradicional para incorporar na música, são as numerosas harmonizações de melodias folclóricas que abrangem tanto a sua obra para voz e piano como as peças corais. Neste contexto é de enfatizar também o seu trabalho enquanto etnógrafo musical – colaborou com Joaquim Alberto e Fernando de Pires Lima em várias publicações e estudos relativos à música tradicional portuguesa.

Fernando Correia de Oliveira, um dos alunos de Cláudio Carneyro relata que a polifonia a capela constituía mais um estilo da sua preferência. Neste sentido a sua produção abrange cerca de 50 peças que compôs com regularidade desde 1917 até ao fim da sua vida.

Outra faceta da sua criação apresenta influências indubitavelmente modernistas. Como escreve Elvira Archer nas páginas da revista Arte Musical: “Não obstante constatar-se uma orientação formal neoclássica em vários casos da sua produção, não obstante a sua grande predilecção pelo passado histórico, aliás por tudo o que era antigo, nomeadamente medieval, maneirista ou barroco, Cláudio Carneyro foi um compositor moderno.”[3] A sua peça para piano, “Sob o Signo Lunar” de 1951, segundo Filipe Pires apresenta “uma escrita profusamente cromática, amalgamando um atonalismo livre com sucessões de tons inteiros e denunciando o acentuado clima esotérico que caracteriza uma das facetas da última fase do compositor.”[4] A peça “Khroma” (com o título alusivo à sua natureza cromática como característica técnica distintiva) para viola de arco e piano (versão de 1954) ou para viola de arco e orquestra (versão de 1962) segundo Manuel Pedro Ferreira “parece inevitável que seja citada como primeiro exemplo conhecido de uma obra de natureza dodecafónica”[5] na perspectiva histórica da música portuguesa do século XX. Segundo as palavras do próprio compositor esta peça constitui “um ensaio livre de dodecafonismo”.[6] Do último período destaca-se ainda a obra “Movimento Perpétuo” para piano (1955) que, também recorrendo às palavras de Filipe Pires constitui “um exemplo flagrante da orientação tecnicista de índole abstracta que Cláudio Carneyro imprimiu a algumas das suas obras dos anos 50”[7].

Cláudio Carneyro deixou uma obra vasta e rica que representa influências das várias correntes mais significantes da história de música do século XX – do impressionismo, passando pelo folclorismo, pela abordagem neoclássica até ao atonalismo / cromatismo / dodecafonismo da Segunda Escola de Viena. A importância da sua produção musical no panorama português do século XX tem certamente a ver com esta diversidade, que numa perspectiva mais pedagógica contribuiu para a divulgação das tendências da composição internacional dentro do meio musical português, naquela altura hermético por razões sociopolíticas. No ano em que comemoramos os 50 anos da sua morte é imprescindível dar um novo contexto à sua obra e actividade. Cláudio Carneyro é certamente mais um compositor português cuja música merece ser redescoberta e apresentada internacionalmente.

Cláudio Carneyro no YouTube

Movimento Perpetuo (1955)
Constantin Sandu – piano


Cantar d'Amigo (1961)
Sílvia Correia de Mateus – soprano | Álvaro Lopes Ferreira – piano


"Portugalesas" (1949)
1. Senhora do Carmo
2. Alvorada do Espírito Santo
3. Malpica I
4. Malpica II
5. Malhão e Senhora do Almortão

Excertos áudio disponíveis no mic.pt

Trio com piano(1928)
Quarteto de Cordas do Porto


Quarteto de Arcos(1947)
Quarteto de Cordas do Porto


Sonata(1928)
Jack Glatzer – violino | Filipe de Sousa – piano


--- 1 Elvira Archer, “Cláudio Carneiro” em: Arte Musical, IV Série – nº 3, Juventude Musical Portuguesa, 1996/04, p. 134 e 138 2 Rui Cabral Lopes, “Carneiro, Cláudio” em: Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, direcção Salwa Castelo-Branco, Lisboa 2010, p. 249 3 Elvira Archer, op. cit., p. 140 4 ibidem 5 Manuel Pedro Ferreira, "Cláudio Carneiro: o caso Khroma" em: "Dez Compositores Portugueses. Percursos da Escrita Musical no Século XX", coordenação de Manuel Pedro Ferreira, Lisboa 2007, p. 113 6 ibidem, p. 114 7 Elvira Archer, op. cit., p. 140