Em foco

Emmanuel Nunes (1941-2012)


Foto: Emmanuel Nunes · 2006 · © MIC.PT

Índice

>> Introdução
>> Aprender
>> Fora de Portugal
>> “Das Märchen” (2008) · compositor e público
>> Linguagem musical
>> Relação com a tecnologia
>> Pedagogia
>> Obras marcantes
>> Especulação

>> Emmanuel Nunes · Playlist

>> Notas de rodapé


Introdução

     «Compor é servir, e não ser servido!» – declarou Emmanuel Nunes no “Auto-Retrato” escrito em 1977 para o Festival Donaueschingen na Alemanha. 1

     Em 2021 Emmanuel Nunes, um dos compositores portugueses com maior reconhecimento internacional e o único compositor a quem, em 2000, foi atribuído o Prémio Pessoa, teria celebrado o seu 80.º aniversário.

     Por uns glorificado como um génio, um músico visionário e por outros reduzido a um árido edificador de estruturas musicais, Emmanuel Nunes, um artista complexo, criou o seu exclusivo universo sonoro, em que, numa lógica de continuidade, permanecem audíveis as influências da tradição polifónica que encontra a sua culminação na obra de Johann Sebastian Bach, do romantismo de Franz Schubert ou Gustav Mahler e também do século XX de Alban Berg, Anton Webern, Karlheinz Stockhausen ou Pierre Boulez. «A minha noção de continuidade tem a ver com o facto de Bach já não ser Monteverdi, de Beethoven já não ser Mozart, e assim sucessivamente. Há uma invenção que renova a continuidade. Inventar do nada não existe, descobrir algo que resulta da falta de cultura ou da falta de honestidade em relação ao que existe também não é descoberta» – sublinhou o compositor na entrevista conduzida por Cristina Fernandes para o Jornal Público em 2000. 2

     A manutenção da continuidade e, por consequência, da vivência da obra dos compositores e das compositoras do passado e do presente, é um dever das gerações presentes e que se sucedem. É, inclusive, neste sentido que o MIC.PT lança o Em Foco dedicado a Emmanuel Nunes – não só para assinalar o seu 80.º aniversário, mas também para contribuir para a continuidade da memória sobre o compositor; memória esta que é uma entidade frágil e que precisa de ser constantemente revigorada, alimentada e estimulada.

     O escritor francês Marcel Proust, cuja leitura foi particularmente relevante para Emmanuel Nunes, nas páginas da sua obra monumental, “Em Busca do Tempo Perdido”, afirma que o melhor da nossa memória está fora de nós. Sendo um dos primeiros escritores que adaptou o termo «memória involuntária», Proust sugere que todas as recordações podem ser reanimadas, através da estimulação dos sentidos com imagens, cheiros ou sabores... tal como o sabor da madalena molhada numa chávena de chá evoca as memórias da infância no narrador do livro “Do Lado de Swann” (“Em Busca do Tempo Perdido” – primeiro volume).

     O Em Foco de Setembro no MIC.PT não tem o objectivo de ser um ensaio exaustivo sobre o compositor, nem de apresentar uma perspectiva nova sobre a obra de Emmanuel Nunes. É antes uma «madalena proustiana» em forma de um documentário escrito, em que os factos da biografia de Emmanuel Nunes misturam-se com os comentários de quatro pessoas da vida musical portuguesa e internacional, cujos percursos cruzaram-se com o percurso de Emmanuel Nunes; são eles: António Jorge Pacheco (director artístico e de educação na Casa da Música), Bruno Gabirro (compositor e investigador), Guillaume Bourgogne (maestro) e Pedro Amaral (compositor e maestro). Estes comentários constituem respostas ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes, que lhes foi dirigido.

     A criação deste Em Foco conta também com a participação de João Rafael, compositor e amigo de Emmanuel Nunes, que por esta ocasião generosamente disponibilizou um texto da sua autoria dedicado a Emmanuel Nunes e publicado em Janeiro de 2013 no Jornal “Musik & Ästhetik”: >> Emmanuel Nunes · Anlässlich seines Todes · João Rafael.
Este texto é um Obituário escrito depois da morte de Emmanuel Nunes em Setembro de 2012, sendo que a tradução do mesmo, de alemão para português e realizada pelo próprio autor, será disponibilizada no MIC.PT durante o mês de Setembro.

     A obra de Emmanuel Nunes contém o peso de um pensamento profundo, uma bagagem musical e filosófica muito rica… e isso pode intimidar levando a uma dificuldade de abordar, em poucas palavras (em formato digital e não analógico, neste caso), uma obra tão vasta, repleta de símbolos e estruturas musicais complexas. Não obstante, é necessário fazê-lo, contribuindo assim para a manutenção da continuidade e da memória sobre esta obra que levanta questões significantes (se não universais) sobre o papel do artista/ compositor nos tempos modernos, sobre a sua capacidade de comunicar com o público, sobre a função da arte na sociedade e sobre a relação entre a obra e o seu criador. Citando as palavras de Emmanuel Nunes: «É, de facto, um paradoxo… por um lado, aquilo que compomos tem de ter uma vida interior, quase biológica, uma energia vital, que é o compositor quem dá; mas na medida em que segue, por assim dizer, a personagem – a vida interior da obra –, o compositor vive, também ele, essa vida. É aqui que se situa o paradoxo: devemos deixar a obra viver, mas somos nós próprios que a fazemos viver, é-se ao mesmo tempo criatura e criador, e oscila-se entre as duas dimensões.» 3

     Além do acto da criação através do qual nasce uma obra de arte é fundamental sustentar também a sua circulação, a sua transmissão e recepção – e este papel pertence ao domínio das instituições, dos programadores, dos intérpretes, dos críticos e do público. Neste processo democrático de recepção cumpre-se uma das necessidades básicas e um dos direitos fundamentais da espécie humana, que é conviver com uma arte que provoca, questiona, desafia e que nos leva à descoberta do novo… como continua a fazê-lo a música de Emmanuel Nunes.

     No 80.º aniversário do nascimento do compositor, o Em Foco do MIC.PT de Setembro é um incentivo para entrar no mundo de Emmanuel Nunes, num processo de descoberta, para quem ainda não o conhece, ou redescoberta, para quem decidiu arrumá-lo na «gaveta da música do século XX».


Aprender

     «Nasci a 31 de Agosto de 1941, em Lisboa. Essa foi a primeira etapa da minha aprendizagem.» 4

     Emmanuel Nunes cresceu numa família sem tradições musicais. Foi por sua iniciativa que, pelos 12 anos, iniciou estudos particulares de Solfejo e Piano. Em 1959 conheceu Fernando Lopes-Graça, que o aceitou como aluno particular (1960-64), frequentando simultaneamente os cursos de Harmonia, Contraponto e Fuga com Francine Benoît, na Academia de Amadores de Música de Lisboa e também as aulas de Louis Saguer sobre Escrita Musical do Século XX. Estas últimas revelaram-se de extrema importância para o compositor. Entre 1962 e 64 Emmanuel Nunes frequentou os Cursos de Verão de Darmstadt, onde se interessou sobretudo pelas aulas de Henri Pousseur e Pierre Boulez.

Bruno Gabirro: O interesse pela música de Emmanuel Nunes despertou como que de «geração espontânea» como ele disse a certa altura – uma decisão íntima, parece-me. A vontade de compor, de ser compositor, surge depois quando estudava na Academia de Amadores de Música de Lisboa. 5

António Jorge Pacheco: O que retenho de muitas horas de conversa com Emmanuel Nunes foi que o seu interesse pela música despontou muito cedo, quando começou a deliciar-se a «fazer chinfrineira» com tachos e panelas (o que nem por isso o levou mais tarde a aderir à música concreta, como ele diria com o seu típico sentido de humor). Depois, entre os 12 e os 17 anos, aprendeu Piano, Solfejo e alguma teoria. A audição dos primeiros discos com música de Mozart, Beethoven, Chopin e Wagner iriam marcá-lo para sempre, tal como as idas a São Carlos. O mundo da ópera jamais deixou de o maravilhar. A composição acabou por se impor como o caminho a seguir o que o levou a procurar Lopes-Graça e a estudar na Academia de Amadores de Música. Foi aí que teve um encontro definidor com Louis Saguer que o iniciou na música da Segunda Escola de Viena (Webern ficando para sempre uma referência maior), Stockhausen e Boulez. Quando Saguer regressa a Paris, Emmanuel sente-se um pouco perdido, mesmo com as aulas de Lopes-Graça que ele nunca deixou de admirar e respeitar. 6

Guillaume Bourgogne: Emmanuel Nunes começou as aulas de piano aos 12 anos. Um dia, a sua professora, apaixonada pela ópera, ofereceu-lhe um bilhete para a ópera “Hansel and Gretel” de Humperdinck. A partir desse dia até aos 23 anos de idade, Emmanuel Nunes viu todas as produções operáticas no Teatro Nacional de São Carlos em Lisboa. Isso tornou-se na sua paixão. Naquela altura, ele passava horas a improvisar no piano e, simultaneamente, a ler muitos livros sobre a música e a ouvir inúmeros discos. Quando falhou pela primeira vez no exame de entrada para a Faculdade de Farmácia, começou a pensar em seguir o caminho de compositor. Logo depois, chegou a conhecer Fernando Lopes-Graça, que mais tarde foi o seu professor. Este encontro foi decisivo para o seu caminho musical e intelectual. 7

Pedro Amaral: Na sua juventude, Emmanuel Nunes frequenta a vida musical portuguesa, concertante e operática. Não podendo ingressar no ensino público, por não tocar um instrumento, inscreve-se na Academia de Amadores de Música de Lisboa, onde estuda Harmonia e Contraponto com Francine Benoît; será também aluno particular de Fernando Lopes-Graça. Intervém no espaço público como crítico musical. Conhece Jorge Peixinho, que lhe abre uma porta para a contemporaneidade musical. Com ele fará a sua primeira viagem a Darmstadt... 8


Fora de Portugal

     «A decisão de sair de Portugal deveu-se fundamentalmente ao facto de eu ter necessidade de estudar e de entrar em contacto com todo o mundo musical, não só exteriormente, mas interiormente e também tecnicamente – o que não era de todo possível no nosso país.» 9

António Jorge Pacheco: A partir do momento em que Emmanuel Nunes passa alguns meses em Paris, no ano de 1963, e tem a oportunidade de frequentar os famosos concertos do Domaine Musical organizados por Boulez e Barrault, sente que o meio musical português não lhe oferecia nada do que ele andava à procura: a sua própria voz na composição contemporânea. Nesse mesmo ano, a frequência dos Cursos de Darmstadt com Jorge Peixinho foi determinante para a sua decisão de deixar Portugal, passando a repartir o seu tempo entre Paris e Colónia, estudando com Henri Pousseur e Stockhausen e frequentando seminários de grandes compositores como Berio. 10

Pedro Amaral: Tendo assistido a um dos Cursos de Verão de Darmstadt, e dada a escassez da contemporaneidade musical na vida musical portuguesa, não teve outra possibilidade senão ir estudar para o estrangeiro, em particular com Karlheinz Stockhausen. Por outro lado, vivendo no estrangeiro, é uma instituição portuguesa, a Fundação Calouste Gulbenkian, que apoiará substancialmente a actividade internacional de Emmanuel Nunes. 11

     Em 1964 Emmanuel Nunes saiu de Portugal e passou então um ano em Paris, preparando-se para estudar Composição com Karlheinz Stockhausen e novamente com Henri Pousseur em Colónia (1965-67). Depois regressou a Paris onde continuou a trabalhar individualmente até 1970. Por forma a obter uma bolsa do Ministério de Educação em Portugal, inscreveu-se nas aulas de Estética de Marcel Beaufils no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris. Obteve o seu «premier prix» em 1971 depois de desenvolver com Michel Guiomar, na Sorbonne, uma tese sobre a “Segunda Cantata” de Anton Webern e a evolução da linguagem musical dessa época. Bolseiro da Fundação Gulbenkian e do governo francês, durante os anos 70 afirmou-se progressivamente no plano internacional, em especial em França e na Alemanha. As suas obras foram também apresentadas regularmente na Fundação Gulbenkian.

     De 1974 a 1976, Emmanuel Nunes foi responsável pelas aulas de Iniciação à Composição do Século XX na Universidade de Pau (França), destinadas a futuros professores de Educação Musical. A partir dos anos 80, a sua actividade pedagógica tomou um grande vulto – o compositor começou a dirigir Seminários de Composição na Fundação Gulbenkian em Lisboa e foi convidado por Ivan Tcherepnin para realizar conferências sobre a sua música na Universidade de Harvard (EUA). De 1986 a 1991 desempenhou as funções de professor na Escola Superior de Música de Freiburg em Breisgau (Alemanha). De 1990 a 1994 leccionou Composição e Música de Câmara na Escola Nacional de Música de Romainville e Composição na Escola Superior do Conservatório Nacional de Música e Dança de Paris, a partir de 1992.

     Em 1985 foi convidado pelo flautista Pierre-Yves Artaud para dar um conjunto de seminários dedicados ao tema “L'attitude instrumentale” no IRCAM (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/ Musique) em Paris, que veio a repetir no ano seguinte durante os Cursos de Verão de Darmstadt. Em 1995 leccionou na Academia de Verão do IRCAM e novamente em Darmstadt em 2002. Em 2004, foi convidado para realizar uma série de aulas, conferências e concertos na Universidade Católica de Santiago do Chile.

     Desde 1989, que o IRCAM albergou as criações do compositor, proporcionando-lhe os meios tecnológicos e a assistência técnica. A sua obra tinha um lugar de destaque na vida musical francesa tendo despertado o interesse de numerosos musicólogos, como Peter Szendy, Brigitte Massin ou Alain Bioteau, que lhe consagrou a sua tese de doutoramento. 1999 é o ano em que lhe foi atribuído o Prémio IMC – UNESCO pela sua obra musical.

     Em 2000 Emmanuel Nunes recebeu o prestigiado Prémio Pessoa concedido anualmente à pessoa/ autor de nacionalidade portuguesa protagonista de uma intervenção particularmente relevante e inovadora na vida artística, literária ou científica. No seu “Discurso de Aceitação do Prémio Pessoa” Emmanuel Nunes disse: «Necessito da vossa indulgência enquanto auditores, dada a deficiência da forma acústica das minhas palavras, que transmitem um conteúdo que espero claro – uma incongruência, apenas aqui inevitável do som e do verbo. Aproveito para sublinhar que tal “cisma” é impensável em qualquer “criatura musical” (…) Reside aqui por ventura a principal razão pela qual muitas pessoas, mesmo de grande cultura literária, e por vezes igualmente pictórica, não logram encontrar na música erudita em geral, e, a fortiori, na música erudita do século passado (século XX!) uma fonte de enriquecimento psíquico e cultural, uma realidade à qual se possam identificar racional e irracionalmente…» 12

Bruno Gabirro: A música em Portugal vive continuamente em estado de serviços mínimos. Serviços mínimos que são suficientes para o poder político retirar o que precisa, mas deficientes para a população e insuficientes para os músicos. Não é um problema novo, é uma condição histórica e sem fim à vista. E o dinheiro que aí se gasta, mesmo que sofra um aumento significativo, não produz qualquer efeito pois sem estruturas que o absorvam ele desaparece. Não há continuidade, vivemos de eventos, o que nos impossibilita um pleno desenvolvimento enquanto músicos. Em entrevista a Cristina Fernandes em 2000 13, Emmanuel Nunes responde de forma clara à pergunta «Nunca pensou regressar a Portugal?» – transcrevo um excerto: «Não. (…) viver lá está fora de questão. Não é o país que está em causa, é a maneira como é desenvolvido, cultivado, a mentalidade… (…)». 14


“Das Märchen” (2008) · compositor e público

     Em Janeiro de 2008 o Teatro Nacional de São Carlos estreou a primeira ópera de Emmanuel Nunes, “Das Märchen” (“O Conto”), baseada na peça homónima de Johann Wolfgang von Goethe escrita em 1795. A estreia, cuja encenação foi concebida por Karoline Gruber e com a direcção musical de Peter Rundel, foi transmitida, a 25 de Janeiro de 2008, em directo para 14 teatros de Portugal. A obra foi uma co-produção do Teatro Nacional de São Carlos, da Fundação Gulbenkian, da Casa da Música e do IRCAM. Como escreveu Mário Vieira de Carvalho: «A origem da ópera “Das Märchen”, remonta a 1975, quando Emmanuel Nunes conheceu o conto de Goethe, numa tradução francesa. O projecto da ópera nasceu desde logo, mas a publicação no ano seguinte do livro de Yvette Centeno, “A simbologia alquímica no conto da Serpente Verde de Goethe” (Universidade Nova de Lisboa, 1976), suscitou no compositor redobrado interesse pelo assunto.» 15

     A «acção» da ópera, na qual Emmanuel Nunes trabalhou durante vários anos, passa-se num universo onírico, com mil coisas a acontecerem ao mesmo tempo. Logo no início as personagens cantam numa língua imaginária que soa alemão, mas na verdade não é…

António Jorge Pacheco: A ideia wagneriana de Gesamtkunstwerk esteve sempre presente na música de Emmanuel Nunes, mas a óbvia concretização verificou-se em “Das Märchen”. 16

Pedro Amaral: Emmanuel Nunes escrevia por obediência exclusiva ao seu impulso criativo. Nunca escreveu para o público, embora desejasse, como qualquer artista, o aplauso do público. No entanto, “Das Märchen” foi talvez a única obra em que se consumou um doloroso divórcio entre o compositor e o público. Um tal divórcio teve duas razões principais: a difícil adequação do espectáculo, enquanto conjunto musical e teatral, a uma casa de ópera e à expectativa do seu público, por um lado, e por outro, as circunstâncias concretas que precederam e rodearam a montagem da obra em São Carlos, nomeadamente com os sucessivos adiamentos da sua estreia e as complexas relações institucionais que a envolveram. 17

     Na altura da estreia “Das Märchen” criou expectativas, gerou controvérsias e uma discussão em volta da função da arte nos tempos modernos. «A grande notoriedade e o reconhecimento públicos nacionais e internacionais de que goza Emmanuel Nunes, a complexidade e o volume dos meios exigidos pela partitura, a própria extensão da obra (cerca de quatro horas de música, duração inabitual em óperas contemporâneas) e, finalmente, as circunstâncias, inclusivamente de natureza política, que precederam a estreia conjugaram-se na extraordinária expectativa suscitada pelo evento.» 18 Esta ópera constitui, porventura, uma reflexão sobre a arte e a sua autonomia, fazendo referências às ideias românticas desenvolvidas por Goethe e Schiller, definindo a posição do artista, as condições do livre jogo da imaginação e as qualidades do génio criador. Emmanuel Nunes joga aqui com uma panóplia de elementos – figuras míticas, magias, círculos, terra, fogo e ouro… –, e é talvez por esta razão que a ópera tenha sido criticada por excesso de elementos simbólicos, de coisas para olhar, para ouvir e para ler. Depois da estreia, o jornalista e musicólogo Pedro Boléo escreveu assim no jornal Público: «O Teatro de São Carlos estava cheio às 20h00, no início da estreia mundial da ópera de Emmanuel Nunes. Ao intervalo, duas horas depois, as desistências eram muitas. Cerca de metade do público tinha abandonado a sala. (...) O que fica de “Das Märchen” é uma perplexidade. Ela leva ao extremo as contradições desta arte que se quer pura (e que afinal é tão impura) e os problemas da função da ópera nos nossos tempos, enquanto representação social do poder». 19

António Jorge Pacheco: Emmanuel Nunes sempre afirmou que se recusava a ter em linha de conta a ignorância do espectador/ ouvinte (ou do músico). Isto diz tudo. 20

Bruno Gabirro: Sempre que na História alguém decidiu que sabia o que os outros queriam ou precisavam, deu em desastre. No caso de um compositor, aquilo que não se controla, porque não é possível de controlar, deve estar afastado do seu pensamento. O público não sei sequer quem é, sei o que é como conceito, mas detenho-me aí. Para o Emmanuel, a segunda atitude envolve aspectos que não dizem respeito a quem faz música. Para si, «compor implica um grande respeito pela pessoa que vai ouvir» disse-o na entrevista a Cristina Fernandes em 2000. 21 Para além disso Emmanuel via cada obra como um ser vivo, quando compunha estava a dar vida. Defino assim a relação «artista – obra – público» em Emmanuel Nunes como uma relação do mais profundo respeito por cada uma das partes envolvidas: por ele próprio, pela obra, e por quem o ouvia. 22

Pedro Amaral: Talvez a ideia de Gesamtkunstwerk tenha sido marcante de um ponto de vista intelectual, mas nunca foi uma influência direta no trabalho de Emmanuel Nunes. A ideia de cruzar as várias artes num mesmo palco só surge em Emmanuel Nunes já no final da vida, com a obra “La Douce” (“Die Sanfte”), estreada na Casa da Música em 2009. Baseada num conto de Dostoiévski, esta obra e o espectáculo que dela resultou na sua estreia, cruzaram efectivamente a música de Emmanuel Nunes com uma dimensão teatral, orientada pelo próprio compositor, e com uma dimensão cenográfica, baseada na pintura da sua companheira Hélène Borel. Este espectáculo resulta directamente da experiência traumática da estreia de “Das Märchen” (“Le Conte, dit du Serpent Vert”) no Teatro Nacional de São Carlos em Janeiro de 2008: um espectáculo no qual a dimensão teatral e cenográfica redundou numa profunda contradição com a música. Doravante, Emmanuel Nunes sentiu a necessidade de encenar, ele mesmo, um espectáculo com a sua música e com a cenografia da sua companheira – é esse o significado de “La douce” e a razão de ser da única experiência de Gesamtkunstwerk na obra do compositor. 23


Linguagem musical

     Segundo as palavras de Rui Vieira Nery, a música de Emmanuel Nunes caracteriza-se por um «grande sentido de controlo da escrita», em que existe «um equilíbrio estabelecido entre a contribuição formal e o impacte emocional». 24

     A obra de Emmanuel Nunes pode ser dividida em três fases – a primeira com a preferência por formas abertas e a distribuição espacial de instrumentos; a segunda com o uso, por um lado, de meios electroacústicos tanto em tempo real como pré-gravados, e por outro, com a exploração mais vasta de técnicas instrumentais; a terceira fase constitui uma síntese dos aspectos agógicos, temporais e espaciais da composição. Adicionalmente, é possível distinguir na música de Emmanuel Nunes duas constantes predominantes – a primeira que é a ligação das peças em ciclos e a outra que é a revisão ou desenvolvimento das composições existentes dando assim vida às novas versões, mas também criando uma forma de complementaridade.25

     Na sua música, cujo florescimento decorreu na época pós-serial, o ouvinte pode descobrir, passo a passo, uma mistura do exagero expressivo com a objectividade da construção composta de ritmos abruptos, rupturas, perspectivas enigmáticas e uma tendência para repetição, quase obsessiva.

António Jorge Pacheco: Emmanuel Nunes estudou seriamente o dodecafonismo e o serialismo e essa foi a sua base. Mas não se pode dizer que alguma vez se tenha deixado limitar pelo «dogma». Além disso, Emmanuel Nunes nunca descurou o estudo (muitas vezes apaixonado) do património musical do passado. Ouvir Mahler para ele era algo imprescindível. Ouvimos muito Wagner juntos enquanto preparávamos um jantar. Ou, algo muito pouco falado, a sua atitude de constante curiosidade pelo jazz, que ele ouvia com gosto sobretudo em bares e rodeado dos seus alunos mais jovens.
O que para mim distingue Emmanuel Nunes é a sua pesquisa constante e inovadora no domínio das estruturas rítmicas (o famoso «par rítmico» é invenção sua) e contrapontísticas e a sua espacialização; é o rigor da concepção, deliberadamente complexa; é a sua força de expressão dramática e uma singular combinação entre sensualidade e espiritualidade.
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Guillaume Bourgogne: A música de Emmanuel Nunes constitui, certamente, um dos universos sonoros mais monumentais e impactantes no seio da obra dos outros compositores da sua geração. A sua música pode ser compreendida, talvez, como a antítese de uma hipotética música decorativa. A intensidade, a densidade e a complexidade da sua escrita obrigam os ouvintes a sujeitarem-se ao que lhes é dado a escutar.
Um dos aspectos significantes na obra de Emmanuel Nunes é a preocupação igual relativamente às estruturas temporais micro-, meso- e macro- fónicas. Ao nível microfónico, muito raramente os compositores são capazes de escrever tantos gestos distintos e complexos dentro de um período reduzido de tempo. A observação dos níveis macro fónicos revela o quanto Emmanuel Nunes se preocupava com a construção da sua obra como um todo: por um lado, a forma de cada peça é totalmente controlada de uma maneira óbvia, e por outro, as suas obras correspondem umas às outras, sendo que até os ciclos dialogam entre si e há no seu catálogo várias peças que contêm referências às obras anteriores.
A estes aspectos, que dão à música de Emmanuel Nunes uma dimensão monumental, alia-se o papel crucial da memória; não me surpreendeu de todo quando soube que o compositor tinha o fascínio, pela leitura e releitura, da obra de Marcel Proust.
Muito tem sido dito e escrito sobre a integração do espaço nos parâmetros de composição. Vários compositores da geração de Nunes têm inovado a maneira como os músicos e/ ou o público são distribuídos no espaço. Não obstante, a singularidade de Emmanuel Nunes neste sentido reside no facto de ele não usar a espacialização como um «suplemento» fútil. Ele integrou uma escrita espacial autêntica na sua obra, sendo que o seu objectivo foi controlar e compor não só o tempo, mas também o espaço.
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Pedro Amaral: A poética musical de Emmanuel Nunes tem por base a racionalidade e o extremo abstracionismo da sua linguagem. Nisso, como na persecução de uma série de aspectos técnicos e formais, foi um seguidor da geração de Darmstadt, em particular da obra de Stockhausen até à primeira metade dos anos 1960. Numa época marcada pela chegada e progressiva generalização do pós-modernismo, a música de Emmanuel Nunes manteve-se fiel ao estruturalismo, levando-o ao limite das suas possibilidades. 28
Em termos históricos, a linhagem de Emmanuel Nunes é aquela que provem do barroco germânico que bebe nas origens do barroco italiano, que atravessa depois o classicismo e a Primeira Escola de Viena, que através de Schubert, Schumann, Bruckner e Mahler leva à Segunda Escola de Viena e dela a Darmstadt. Pessoalmente, revejo-me nessa continuidade, embora a pura abstração da poética estruturalista se tenha esbatido numa linguagem atualmente muito mais plástica, menos voltada para si mesma. Essa evolução também aconteceu com o espectralismo, sendo de algum modo contraditória com o cruzamento de linguagens trazido pelo pós-modernismo.
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Relação com a tecnologia

     A obra de «A aprendizagem e a apropriação da virtualidade do “tempo real” passam, estou disso convencido, pela assimilação de um certo número de leis e de constantes acústicas que traduzem características primordiais do mundo sonoro, de certos critérios da propagação do som, de certas especificidades associadas a cada família de instrumentos e aos traços distintivos dos perfis espectrais de cada instrumento, por uma certa consciência do “comportamento” dos principais parâmetros do som; tal consciência torna possível a apreciação, mesmo que só muito geral, das características acústicas de um lugar.» 30

António Jorge Pacheco: Emmanuel Nunes desde cedo viu na tecnologia um meio de alargar as propriedades acústicas e expressivas dos instrumentos tradicionais. Stockhausen não deixou de ter aqui também um papel determinante. Com a criação do IRCAM, Emmanuel Nunes encontrou um centro de desenvolvimento tecnológico e uma equipa dedicada e competente que sempre o apoiou e lhe permitiu também adquirir competências no processamento computacional. 31

Bruno Gabirro: Na sua música, a electrónica e os instrumentos estão em total simbiose. São pensados da mesma maneira e segundo os mesmos processos, seja no acto de compor, seja no acto de interpretar – como um total sonoro. A evolução tecnológica permitiu-lhe uma maior integração e acuidade na sua prática musical, mas a sua forma de pensar a electrónica, não podendo ser independente dessa evolução, precede a questão da evolução em si. É sempre o som e o acto de o realizar que é primordial na música de Emmanuel Nunes. 32

Pedro Amaral: A tecnologia foi, para Emmanuel Nunes, por um lado, uma extensão dos meios instrumentais (expandido as possibilidades instrumentais através da interacção eletroacústica em tempo real) e, por outro, uma extensão do próprio espaço acústico e, nomeadamente, da «espacialidade», das possibilidades reais de uma espacialização do som instrumental no auditório de concerto, através de altifalantes. 33


Pedagogia

     Simultaneamente à sua actividade composicional Emmanuel Nunes destacou-se como pedagogo, tendo ensinado várias compositoras e compositores portugueses das gerações mais novas, incluindo: Bruno Gabirro, Jaime Reis, João Madureira, João Rafael, Pedro Amaral, Pedro M. Rocha, Ricardo Ribeiro, ou Virgílio Melo, entre muitos outros. Foi desde 1981 que o compositor orientou os Seminários de Composição na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa. As outras instituições de ensino nas quais exercia a sua actividade pedagógica foram, entre várias outras: o Conservatoire National Supérieur de Musique et de Danse de Paris (França) e a Hochschule für Musik Freiburg (Alemanha).

     No processo do ensino da música Emmanuel Nunes não dava muito valor à transmissão de «verdades», mas incentivava os alunos a encontrar a «verdade em si» daquilo que escrevem, partindo, de facto, das suas próprias ideias. «(...) da ideia ao objecto real o caminho é vasto e árduo: o que tento fazer relativamente a eventuais falhas de realização não é corrigir, mas sim procurar percorrer o seu próprio caminho interior. Devemos procurar compreender a que corresponde em nós aquilo que compomos. Se não há qualquer tipo de projecção do ser (do compositor) na sua partitura e, à posteriori, da partitura no compositor, não vale a pena! E a minha função é ajudar a reconhecer essa projecção, e mostrar que tal maneira de realizar tem a ver com tal ou tal esquema mental que o aluno pode não conhecer ainda.» 34

Bruno Gabirro: Fui aluno de Emmanuel Nunes, no contexto dos Seminários de Composição da Fundação Gulbenkian, de 2002 a 2010, e mantive um contacto próximo com ele nos dois anos seguintes. Como eu, muitos outros o visitaram também nesses Seminários. Esse contacto foi decisivo para mim. Algo muito importante que apreendi foi de que o pensamento é fundamental, mas tem de se materializar em algo real através da invenção, caso contrário é estéril. E para tal o «artesanato» musical, a capacidade técnica, é extremamente importante. Sendo isto consensual, trivial até, uma coisa é dizê-lo outra é despertá-lo em nós, através do confronto das nossas próprias ideias e a forma como as realizávamos. Ligar tudo e ter a capacidade de olhar em perspectiva, com um olhar crítico, para nós próprios. Esta era para mim, a sua forma de ensinar. 35

Guillaume Bourgogne: Encontrei Emmanuel Nunes pela primeira vez em 1994, quando tinha apenas 21 anos. Nesse dia estava no público no exame final do compositor francês Brice Pauset no Conservatório de Paris e o Emmanuel fazia parte do júri. Pauset apresentou uma peça virtuosística para violino solo, com um grau considerável de complexidade das relações temporais e da escrita rítmica. Durante a apresentação Pauset mencionou ter fixado o limite de 16 notas por segundo como a velocidade máxima. Imediatamente depois reparei no Emmanuel Nunes, cujo nome não me era conhecido até aquele momento, e que estava a fazer cálculos com uma calculadora: «nessa parte desse compasso o violinista tem que tocar 16,87 notas por segundo!» Isto aconteceu mesmo antes de eu ter entrado no Conservatório de Paris, tendo deixado uma impressão considerável no músico-aprendiz que na altura fui!
Anos depois, devido à recomendação de Emmanuel Nunes, dirigi a Orquestra Gulbenkian nos Seminários de Composição, entre 2003 e 2007 (todos os anos ele dava seminários e classes dirigidas a jovens compositores portugueses). Depois, os compositores tinham que apresentaras suas partituras e o Emmanuel, Luís Pereira Leal e eu seleccionávamos um conjunto de peças para dois concertos. Nesses momentos podia observar a sua gentileza e abertura, misturadas com uma exigência forte durante os ensaios e a convivência. Todos os compositores e músicos guardavam uma grande admiração e respeito por ele. Tornei-me amigo de alguns desses compositores e estes sentimentos permanecem muito presentes até hoje. A aura de Emmanuel Nunes era também «palpável» entre os seus estudantes no Conservatório de Paris, e ao contrário do que se possa pensar, as suas ideias pareciam ser igualmente significativas e relevantes, tanto para os estudantes com um estilo musical muito diferente do seu, como para os estudantes mais próximos da sua estética.
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Pedro Amaral: Durante vários anos, entre a década de 1980 e as décadas seguintes, Emmanuel Nunes orientou um Seminário Semestral em Composição na Fundação Gulbenkian. Sendo seminários extremamente ricos, não constituíam uma didáctica sistemática, pelo que os alunos que a eles assistiam faziam o essencial da sua formação nas várias instituições da academia portuguesa. Nesse sentido, sendo importantes, estes seminários não foram, de modo algum, decisivos na criação de qualquer geração de compositores. Vivendo no estrangeiro, os portugueses que desejaram estudar directamente com Emmanuel Nunes fizeram-no em escolas estrangeiras (Pedro Amaral no CNSM de Paris e João Rafael na Hochschule für Musik Freiburg). 37

António Jorge Pacheco: Nunca estudei composição e nunca frequentei as aulas de Emmanuel Nunes. Uma coisa posso afirmar, conhecendo-o: Emmanuel nunca iria querer criar epígonos. Testemunhei muitas vezes a alegria que o Emmanuel sentia quando estava rodeado de jovens compositores. O fascínio que ele exercia sobre os mais jovens era evidente, mesmo em momentos de sociabilização que ele de resto estimulava. 38


Obras marcantes (segundo Pedro Amaral e Guillaume Bourgogne)

Pedro Amaral: “Ruf” (1977) é uma peça orquestral, com uma pequena dimensão electroacústica (fita magnética), que trouxe a uma poética pós-serial abstracta uma dimensão orquestral e uma «violência» sonora quase inaudita nos compositores da geração de Darmstadt.
“Lichtung I – III” (1991-2007) leva ao extremo a expansão dos meios instrumentais e do próprio espaço acústico através da electrónica em tempo real.
“Das Märchen” (2008) é, de algum modo, um resumo e uma apoteose dos meios composicionais de Emmanuel Nunes.
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Guillaume Bourgogne: São as seguintes peças que considero particularmente importantes no percurso de Emmanuel Nunes: “Litanies du feu et de la mer I & II” (1969/ 71), “Nachtmusik I” (1977/ 78) e “Quodlibet” (1991). Estas obras são também algumas das minhas peças favoritas. “Lichtung I” (1991) e “Lichtung II” (2000) também contam para mim de uma maneira particular, especialmente porque estive presente no concerto na Cité de la Musique em Paris em 2000, no qual o Ensemble Intercontemporain estreou a peça “Lichtung II”; esta experiência foi para mim muito marcante.
“Nachtmusik I” é a única obra de Nunes que até agora dirigi; daí a minha ligação forte com a mesma, também porque as suas interpretações (de ambas as versões, com e sem electrónica) foram realizadas no âmbito das homenagens ao compositor, logo depois da sua morte. Esta peça e o seu «espaço de ausência» (Alain Bioteau), com a exclusão das notas Mi, Sol, Sol sustenido e Lá, foi a melhor escolha possível para esta comemoração. A instrumentação sombria, as harmonias estáticas profundas de certas passagens, as longas suspensões do discurso e a expressividade única desta peça de 33 minutos, fizeram com que estas experiências tenham sido das mais comoventes da minha carreira. “Nachtmusik I” é particularmente importante no percurso de Emmanuel Nunes como o primeiro elemento do ciclo “A Criação”, marcando a articulação entre dois períodos criativos distintos. Igualmente, nessa obra Emmanuel usou pela primeira vez o sistema do «par rítmico» ao qual recorreu regularmente durante muitos anos.
As duas “Litanies du feu et de la mer” constituem um passo fundador da obra de Nunes. Depois destas páginas magníficas e introspectivas, o compositor nunca mais escreveu novamente para piano solo, e mais do que isso, quase não recorreu ao piano nas peças para conjuntos instrumentais de maiores dimensões. As duas “Litanias” parecem ser uma homenagem ou até uma despedida deste instrumento, no qual Nunes improvisava tanto na sua juventude.
“Quodlibet” é um elo final entre o passado, o presente e o futuro. Escrita para ser apresentada na sala que o compositor conheceu desde criança, o Coliseu dos Recreios em Lisboa, Emmanuel Nunes compôs este monumento musical impressionante de uma hora, tanto para este local como para os numerosos músicos e os dois maestros que a interpretação desta obra exige. Aqui o compositor pega no material musical das peças passadas, enquanto uma reexploração do seu próprio caminho. Descobri a música do Emmanuel Nunes através da gravação ao vivo desta peça introspectiva e extraordinária; foi um choque estético, apesar de nunca ter tido oportunidade de assistir à sua apresentação ao vivo.
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Especulação

     É possível imaginar a história da música sem Emmanuel Nunes?

António Jorge Pacheco: Não, nem a história da música nem a minha história pessoal e profissional. 41

Bruno Gabirro: Não. Também não consigo imaginar a história da música através de uma qualquer linhagem de compositores. Vejo-a talvez como uma teia, intemporal, da qual conhecemos apenas certas manifestações, as que nos são visíveis, e tentamos induzir o resto. E os nomes vamos a pouco e pouco esquecendo. Aí, eu, vejo claramente o Emmanuel, na medida em que é também através do olhar histórico que nos compreendemos e renovamos. 42

Pedro Amaral: Não é certo que a obra de Emmanuel Nunes se venha a revelar determinante (em retrospectiva) na evolução histórica contemporânea. 43

Guillaume Bourgogne: Durante a vida de Emmanuel Nunes, no seio do universo francês da música contemporânea, a música espectral ganhou de certo modo a hegemonia cultural. Curiosamente, apesar da sua estética ter sempre sido esteticamente longe da corrente espectral, as preocupações de Emmanuel Nunes aproximavam-se dos compositores que conduziram a revolução espectral: a acústica, o espaço e a composição do tempo. Um deles, Tristan Murail, de forma semelhante a Emmanuel Nunes – não obstante os universos composicionais dos dois serem indubitavelmente muito diferentes –, preocupa-se muito com o passado e com a memória, ao mesmo tempo tendo o objectivo de criar algo de novo. Certamente, não é uma coincidência que Murail realizou várias colaborações com Emmanuel Nunes no âmbito do Ensemble l’Itinéraire, num período quando a sua música não era frequentemente apresentada em França. Felizmente, a força criativa de Emmanuel Nunes seguiu o seu próprio caminho, independentemente das correntes e tendências principais, sendo que o compositor alimentou e inspirou a criação musical europeia durante anos.
A sua obra continua a exercer influência, não só através dos seus ex-alunos, mas também pela marca que deixou. A arte de Emmanuel Nunes permanece um exemplo de beleza, complexidade, novidade e originalidade para as gerações futuras, ao mesmo tempo sustentando a sua existência e substância a partir do passado.
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Setembro de 2021
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Emmanuel Nunes · Playlist

 

   
Emmanuel Nunes
Litanies du feu et de la mer II (1971)
See Siang Wong (piano)
Guild (provided to YouTube by The Orchard Enterprises)
  Emmanuel Nunes
Nachtmusik I (1978)
Ictus Ensemble [Takashi Yamane (clarinete baixo), Piet Van Bockstal (corne inglês), Alain Pire (trombone), Paul De Clerck (viola), Geert De Bièvre (violoncelo)], Peter Rundel (direcção)
  Emmanuel Nunes
Quodlibet (1990-91)
Ensemble Modern, Kasper de Roo (direcção) · Orquestra Gulbenkian, Emilio Pomàrico (direcção) · gravação ao vivo: Coliseu dos Recreios, Lisboa, Encontros de Música Contemporânea 1994
· «Impromptu Pour Un Voyage» (1973) · Trio Debussy: Jacques Royer (flauta), Davia Binder (viola), Francis Pierre (harpa) · Jean-Jacques Greffin (trompete) · «Emmanuel Nunes · “Degré” · “Impromptu pour un Voyage”» [Portugalsom / Strauss (SP 4032)] ·
· «Minnesang» (1976) · Groupe Vocal de France: Béatrice Gaucet (soprano), Cécile Claude (soprano), Véronique Hazan (soprano), Françoise Levy (alto), Martine Vienney (alto), Madeleine Jalbert (alto), Stuart Patterson (tenor), Etienne Lestringant (tenor), Brune Boterf (tenor), Pascal Sausey (barítono), James Gowings (barítono), Michel Tranchant (direcção) · «Emmanuel Nunes · Pierre-Yves Artaud Groupe Vocal de France Michel Tranchant» [Radio France / Adda (581 110)] ·
· «Einspielung I» (1979) · Suzanna Lidegran (violino) · Portuguese Music for Violin [Miso Records (MCD 029.12)] ·
· «Tissures» (2002) · Remix Ensemble Casa da Música, Franck Ollu (direcção musical) · «Remix Ensemble» [Numérica (NUM 1126)] ·
· «Épures du Serpent Vert II» (2005-06) · Remix Ensemble Casa da Música, Peter Rundel (direcção musical) · «Emmanuel Nunes · “Épures du serpent vert II” · “Duktus” · Remix Ensemble · Peter Rundel» [Numérica (NUM 1153)] ·
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Notas de rodapé

1 Emmanuel Nunes · “Auto-retrato” (1977) em: “Emmanuel Nunes – Escritos e Entrevistas”, editado por Paulo de Assis · Casa da Música/ CESEM · 2011 · p. 42 · tradução alemão-português: Paulo de Assis.
2 Emmanuel Nunes na Entrevista conduzida por Cristina Fernandes, “A minha cultura é um todo”, Público, 25 de Junho de 2000.
3 Entrevista a Emmanuel Nunes em: Sérgio Azevedo · “A Invenção dos Sons. Uma Panorâmica da Composição em Portugal Hoje” · Editorial Caminho · Lisboa 1998 · p. 232.
4 Emmanuel Nunes · “Auto-retrato” (1977) em: “Emmanuel Nunes – Escritos e Entrevistas” · op. cit. · p. 39.
5 Bruno Gabirro · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 1: «Segundo o seu conhecimento, quais foram as raízes musicais de Emmanuel Nunes e o que o levou a seguir o percurso da música e da composição?» · MIC.PT, 2021.
6 António Jorge Pacheco · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 1 · MIC.PT, 2021.
7 Guillaume Bourgogne · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 1 · tradução inglês-português: Jakub Szczypa · 2021, MIC.PT.
8 Pedro Amaral · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 1 · 2021, MIC.PT.
9 Entrevista a Emmanuel Nunes em: Sérgio Azevedo · “A Invenção dos Sons. Uma Panorâmica da Composição em Portugal Hoje” · op. cit. · p. 215.
10 António Jorge Pacheco · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 2: «Porque Emmanuel Nunes decidiu trabalhar e viver no estrangeiro?» · 2021, MIC.PT.
11 Pedro Amaral · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 2 · 2021, MIC.PT.
12 Emmanuel Nunes · “Discurso de Aceitação do Prémio Pessoa” (2000) em: “Emmanuel Nunes – Escritos e Entrevistas” · op. cit. · p. 53-54.
13 Emmanuel Nunes na Entrevista conduzida por Cristina Fernandes, op. cit.
14 Bruno Gabirro · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 2 · MIC.PT, 2021.
15 Mário Vieira de Carvalho · “Macdonaldização da comunicação e arte como fast food: Sobre a recepção de Das Märchen” em: “A Arte da Cultura (Homenagem a Yvette Centeno)” · eds. Alda Correia, Gabriela Cardoso, Fernando Ribeiro, Manuel Canaveira · Lisboa, Colibri, 2011 · p. 169-196.
16 António Jorge Pacheco · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 4: «A ideia wagneriana de Gesamtkunstwerk foi marcante para Emmanuel Nunes?» · MIC.PT, 2021.
17 Pedro Amaral · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 7: «“Há dois tipos de compositores: os que dizem que escrevem para si próprios e os que afirmam o contrário” – disse Emmanuel Nunes na entrevista conduzida por Cristina Fernandes e dada ao Jornal Público em 2000, o ano que que o compositor ganhou o Prémio Pessoa. Neste contexto, tente definir a relação “artista – obra – público” no caso de Emmanuel Nunes.» · MIC.PT, 2021.
18 Mário Vieira de Carvalho · “Macdonaldização da comunicação e arte como fast food: Sobre a recepção de Das Märchen” · op. cit. · p. 169-196.
19 Pedro Boléo · “Metade do público abandonou a ópera de Emmanuel Nunes na estreia no Teatro de São Carlos” · Público · 27 de Janeiro de 2008.
20 António Jorge Pacheco · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 7 · MIC.PT, 2021.
21 Emmanuel Nunes na Entrevista conduzida por Cristina Fernandes, op. cit.
22 Bruno Gabirro · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 7 · MIC.PT, 2021.
23 Pedro Amaral · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 4 · MIC.PT, 2021.
24 Rui Vieira Nery em: Ana Marques Gastão · “Música, perfeito organismo” · Artes e Multimédia · Diário de Notícias · Dezembro de 2000.
25 De acordo com: Adriana Latino · “Emmanuel Nunes” em: Grove Music Online · Oxford Music Online · www.oxfordmusiconline.com.
26 António Jorge Pacheco · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 3: «Na entrevista realizada por Jorge Lima Barreto no livro “Musonautas – Entrevistas”, Emmanuel Nunes disse que a “grande revolução de Stockhausen não residia nos processos técnicos, mas numa visão geral da própria música”. Qual é a sua visão geral da música de Emmanuel Nunes e o que distingue o universo sonoro do compositor no panorama musical dos séculos XX e XXI?» · MIC.PT, 2021.
27 Guillaume Bourgogne · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 3 · tradução inglês-português: Jakub Szczypa · MIC.PT, 2021.
28 Pedro Amaral · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 3 · MIC.PT, 2021.
29 Pedro Amaral · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 9: «Em 2000 Emmanuel disse: “Na continuidade há sempre aspectos de ruptura e vice-versa. Se tivesse que escolher uma diria que a minha atitude se liga à continuidade. (...) A minha noção de continuidade tem a ver com o facto de Bach já não ser Monteverdi, de Beethoven já não ser Mozart, e assim sucessivamente. Há uma invenção que renova a continuidade”. Poderia neste sentido traçar uma linha a partir da obra de Emmanuel Nunes, passando pelo presente, e olhando para o futuro?» · MIC.PT, 2021.
30 Emmanuel Nunes · “A virtualidade do tempo real” (2001) em: “Emmanuel Nunes – Escritos e Entrevistas” · op. cit. · p. 234.
31 António Jorge Pacheco · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 5: «Como na música de Emmanuel Nunes se manifesta a influência da evolução tecnológica?» · MIC.PT, 2021.
32 Bruno Gabirro · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 5 · MIC.PT, 2021.
33 Pedro Amaral · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 5 · MIC.PT, 2021.
34 Entrevista a Emmanuel Nunes em: Sérgio Azevedo · “A Invenção dos Sons. Uma Panorâmica da Composição em Portugal Hoje” · op. cit. · p. 231.
35 Bruno Gabirro · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 8: «Qual foi a abordagem de Emmanuel Nunes enquanto pedagogo e qual foi a importância e a contribuição do compositor para a criação de novas gerações de compositores e compositoras em Portugal?» · MIC.PT, 2021.
36 Guillaume Bourgonge · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 8 · tradução inglês-português: Jakub Szczypa · MIC.PT, 2021.
37 Pedro Amaral · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 8 · MIC.PT, 2021.
38 António Jorge Pacheco · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 8 · MIC.PT, 2021.
39 Pedro Amaral · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 6: «Escolha e descreva brevemente três obras de Emmanuel Nunes mais relevantes no percurso do compositor do seu ponto de vista» · MIC.PT, 2021.
40 Guillaume Bourgonge · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 6 · tradução inglês-português: Jakub Szczypa · MIC.PT, 2021.
41 António Jorge Pacheco · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 10: «Consegue imaginar a história de música sem Emmanuel Nunes?» · MIC.PT, 2021.
42 Bruno Gabirro · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 10 · MIC.PT, 2021.
43 Pedro Amaral· resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 10 · MIC.PT, 2021.
44 Guillaume Bourgonge · resposta ao Questionário do MIC.PT sobre Emmanuel Nunes · pergunta n.º 10 · tradução inglês-português: Jakub Szczypa · MIC.PT, 2021.

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