Em foco

Vítor Rua


“O músico de hoje tem ao seu dispor toda uma multiplicidade de formas musicais e de diferentes civilizações para poder desenvolver o seu trabalho.”[1]

A carreira de Vítor Rua, compositor, improvisador, instrumentista e videasta, é multidimensional. O músico autodidacta iniciou a sua actividade no âmbito do rock, mas foi progressivamente aproximando-se dos círculos da nova música sem, no entanto, ter abandonado por completo a actividade noutras áreas musicais[2]. A sua experiência tem-se caracterizado ao longo dos anos por uma sistemática abordagem a diversas tipologias musicais, como: o art-rock, o minimalismo, a música electrónica e concreta, o jazz ou a música improvisada[3]. Vítor Rua nasceu em Mesão Frio em 1961. Estudou guitarra na Escola de Música Duarte Costa de 1974 a 1976 no curso leccionado por José Pina, no Porto. A partir de 1971, iniciou a sua actividade profissional integrando conjuntos executantes de covers de pop-rock e criando grupos de rock para executar originais. Entre 1976 e 1977, integrou o grupo King Fisher's Band, e, dois anos depois, fundou, com Alexandre Soares, os GNR. Com esta banda deu vários concertos, destacando-se o derradeiro no Festival de Vilar de Mouros de 1982. Nesse ano, conheceu Jorge Lima Barreto, cuja influência terá sido decisiva para a sua mudança definitiva de rumo musical. Juntos formaram o grupo Telectu, um dos primeiros em Portugal a dedicar-se à música electrónica improvisada. Telectu – da música minimal à improvisação “O Jorge Lima Barreto, deu-me a conhecer um mundo de música que até ali era quase restrito ao rock e pouco mais. De repente, comecei a ouvir música etnográfica, jazz, música electrónica, música concreta, músicas acusmáticas. Em 10 minutos podia estar com os esquimós e logo a seguir com o jazz norte-americano. Quando isso aconteceu, foi muito importante para mim. Isso abriu-me as portas a um mundo totalmente novo e imediatamente vi que era isso que me interessava.”[4] Na primeira fase – entre 1982 e 1985 – o grupo abordou, de certa maneira, a música minimal repetitiva, utilizando frases e módulos simples. As composições eram escritas em formatos não convencionais – pictogramas ou texto. Na fase seguinte, entre 1985 e 1987, os músicos do Telectu dedicaram-se à improvisação e começaram a ter encontros com improvisadores internacionais e intérpretes de música contemporânea. Desde 1989 o grupo recorre frequentemente a técnicas instrumentais menos comuns (instrumental extended techniques) e ao o uso do processamento electrónico de modo a explorar as várias potencialidades tímbricas dos instrumentos e obter efeitos sonoros originais. O Telectu actuou e gravou com diversos músicos de projecção internacional como Elliot Sharp, Evan Parker, Chris Cutler ou Louis Sclavis.[5] A partir do final dos anos 80 Vítor Rua encetou uma aprendizagem autodidacta da notação musical, iniciando uma carreira enquanto compositor de música erudita. Em 1990 idealizou e produziu o LP de música improvisada “Vidya” que reuniu alguns dos principais músicos da área da improvisação então activos. Em 1994, formou o agrupamento Vidya Ensemble para a interpretação de algumas das suas obras.[6] Improvisador vs Compositor “O improvisador tem de ser um pouco como Lucky Luke: mais rápido que a própria sombra...”[7] A essência da improvisação é a espontaneidade, a intuição musical, o aleatório “onde jogos e sistemas baseados no acaso levam o improvisador a momentos improvisacionais únicos.”[8] Na obra de Vítor Rua existe uma grande ligação, uma interacção entre a improvisação e a composição, como enfatiza o próprio compositor: “uma espécie de ping-pong entre as duas coisas. Na composição, uma pessoa tem que saber sempre quando é que está terminado ou quando é que ainda se pode corrigir (...), mesmo que se componha em tempo real. (...) Na improvisação, acho que o melhor que vem da composição é a racionalidade de uma pessoa estar a improvisar como se estivesse a compor. E, por outro lado, na composição, todas aquelas liberdades intuitivas, espontâneas, e coisas que surgem do contacto com os instrumentos e a improvisação, foram-me muito úteis no trabalho de compositor."[9] Recentemente Vítor Rua tem composto para teatro, dança e cinema. Desempenhando várias funções em diferentes actividades artísticas, a sua acção pautou-se pelo cruzamento e aproximação de diferentes domínios da música. Com uma forte componente humorística o seu estilo composicional é igualmente caracterizado pela exploração de pequenos fragmentos musicais e pelo recurso a técnicas instrumentais menos comuns para a obtenção de timbres específicos. Na sua escrita musical procura igualmente utilizar símbolos gráficos, por vezes inovadores, adequados às sonoridades e às técnicas instrumentais exigidas para a interpretação de cada uma das obras. É frequente o recurso a técnicas de sampling e processamento electrónico do som no seu processo de criação musical.[10] Quase o Frank Zappa Português Vítor Rua desenvolve a sua criação musical mantendo uma autonomia da corrente oficial da música contemporânea portuguesa. Tal como no caso de Frank Zappa as suas raízes musicais vêm do âmbito de rock, da improvisação e da abertura à experimentação com estilos musicais diferentes. À semelhança do músico americano o humor e a ironia utilizados para comentar a contemporaneidade desempenham um papel importante na sua postura enquanto músico e compositor, basta mencionar alguns títulos das suas obras – “I Hate Music!” ou “It’s So Tonal that Makes Me Vomit”. Em Janeiro de 2009 na Culturgest decorreu a estreia da sua ópera “Uma Vaca Flatterzunge”, um teatro absurdo de compositores, intérpretes e musicólogos que recorre aos estereótipos da ópera bufa, séria, cómica e opereta. Vítor Rua assume uma noção desconstrutiva do teatro musical, criando um fluxo de gestos criativos enfatizados pelo humor. “Eu vejo essas coisas como uma vantagem de ter o meu mundo, que nunca vai interferir nem competir com os outros. Alguém uma vez me perguntou se eu tinha, por vir do rock, algum tipo de problemas, se ia ser difícil para mim entrar no mundo da música contemporânea. E eu disse: «e quem é que te disse a ti que eu queria entrar no mundo da música contemporânea?»”[11]

Lista de Obra

Telectu

Telectu – I Telectu – II Telectu & Chris Cutler

John Tilbury

Vitor Rua - Piano Works (I, II, III) Vitor Rua - What time is it?

Ópera

Vitor Rua - Uma Vaca Flatterzunge

Daniel Kientzy interpreta Vítor Rua

Vitor Rua - Saxopera

Myspace

1 Sérgio Azevedo, A Invenção dos Sons. Uma Panorâmica da Composição em Portugal Hoje, Editorial Caminho, Lisboa 1998, p. 616 2 Pedro Roxo, "Vítor Rua", Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, direcção Salwa Castelo-Branco, Lisboa 2010, p. 1150 3 Sérgio Azevedo, op. cit., p. 607 4 Fragmento duma entrevista a Vítor Rua conduzida por Teresa Cascudo (Entrevistas mic.pt) 5 Pedro Roxo, op. cit. 6 Pedro Roxo, op. cit. 7 Sérgio Azevedo, op. cit., p. 610 8 Sérgio Azevedo, op. cit., p. 609 9 Teresa Cascudo, op. cit. 10 Pedro Roxo, op. cit. 11 Teresa Cascudo, op. cit.