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José Luís Ferreira


Questionário / Entrevista

Parte I - raízes e educação

Como começou para si a música?

Costumo dizer que o primeiro contacto com a música começou com Beethoven e fados da Amália… É uma ligação talvez estranha à partida, mas era o que a minha Mãe ouvia. Desde muito novo que decorei e "dirigia" no ar as sinfonias de Beethoven e "aguentava" o fado dos fados da Amália… Comecei a ir a concertos da orquestra Gulbenkian com nove anos de forma regular, e só dois anos mais tarde é que iniciei os meus estudos de música na Academia de Amadores de Música. Tínhamos um piano em casa… portanto o natural foi começar a estudar piano. A minha educação musical começou pelo "ouvir" e isso devo-o à minha Mãe (… e ao Beethoven). Sou músico graças ao que a minha Mãe me proporcionou, pelas portas que me foi abrindo enquanto crescia. A composição veio mais tarde…

Que momentos da sua educação musical se revelaram de maior importância para si?

Um dos primeiros momentos foi tomar consciência que não teria capacidade de ser um performador, não por uma questão de talento, mas por uma questão psicológica. Tocar fosse o que fosse para outros ouvirem era (é!) um autêntico pesadelo, perdia o controle das minhas mãos, raramente me conseguia isolar no momento e dedicar-me completamente. Talvez por causa disso tenha tanto apreço e respeito por aqueles que o fazem, e sobretudo, pelos que o fazem e acrescentam algo verdadeiramente deles. Não conseguindo ser só um mero ouvinte ou um crítico/comentador (o que seria para mim, na altura, a Musicologia), teria que fazer algo em que pudesse pôr as "mãos na massa" e dar azo às brincadeiras pianísticas que sempre fiz desde pequeno. Foi nessa altura que conheci o Pedro Rocha que foi o meu professor de Análise e Técnicas de Composição na Academia. Foi ele que me abriu as portas para a composição. Outros momentos foram, evidentemente, o meu ingresso na Escola Superior de Música e o contacto privilegiado com professores como Christopher Bochmann, que me ensinou os aspectos fundamentais sobre técnicas de composição e plantou as bases para adquirir um “métier”, com o António de Sousa Dias veio a electroacústica... e com o António Pinho Vargas vieram os “porquês” (...) e o controle formal.

Parte II - influências, estética

Que referências assume na sua prática composicional?

Existe uma obra de Gérard Grisey, a qual não me permito ouvir muito por causa da chamada "Angústia da influência" (Harold Bloom), que se chama "Vortex Temporum" - tem três andamentos - o segundo é dedicado a Salvatore Sciarrino e o terceiro a Helmut Lachenmann. A referência a esta obra é só uma forma de apresentar estes três compositores que têm sido as minhas referências actuais e não poderiam ser mais díspares… Mas o som como ponto de partida ou de trabalho e desenvolvimento é comum. E, aqui, o meu trabalho com música electroacústica é essencial. Sendo um compositor de música electroacústica mista (ou seja a conjugação de instrumentos acústicos e electrónicos), é-me essencial entender como funciona o fenómeno sonoro. É a tal "massa" com que inicialmente pretendemos lidar quando escrevemos "a" primeira nota numa partitura. Conhecendo o som, as hipóteses de desenvolvimento ("a" terrível "segunda nota") multiplicam-se, o que dificulta a escolha.

Há quem diga que a música, devido à sua natureza, é essencialmente incapaz de exprimir qualquer coisa, qualquer sentimento, atitude mental, disposição psicológica ou fenómeno da natureza. Se a música parece exprimir algo, é apenas uma ilusão, uma metáfora e não realidade. Podia definir, neste contexto, a sua postura estética?

Sou humano, escrevo música para humanos. A hipótese, de que a música seja incapaz de exprimir qualquer coisa que seja, é incompleta nesta interacção entre seres humanos. (Estes, têm a tendência de ser complexos…) A música não é objectiva, certamente. Cada um a sente como quer, ou como pode. Não gosto de escrever notas de programa explicativas porque, para mim, serão sempre um condicionamento à fruição da obra. Não quero nem tenho o direito de aproximar a visão dos outros à minha… Na realidade, "os porquês" não têm que ser partilhados abertamente - só através da obra. São os "eus" que têm que descobrir os seus "porquês"…

Existem algumas fontes extramusicais que de uma maneira significante influenciem o seu trabalho?

Existem, claro… a minha vida.

Parte III - linguagem, prática composicional

Que relação tem com as novas tecnologias e como estas influenciam a sua maneira de compor?

De cada vez que surge um novo instrumento há uma tendência para explora-lo até às últimas consequências… mesmo que estas se afastem do que pretendemos fazer: Música. Foi assim ao longo de todo o percurso da História e será sempre. Com os avanços tecnológicos dos últimos vinte anos, encontramo-nos numa época em que todos os dias surge uma nova ideia, um novo conceito, uma nova forma de fazer… A tendência de considerar a tecnologia como um fim (por muito que não seja assumido) é natural… Mas eu procuro não me esquecer - o computador é um meio como é (nos nossos dias) um fagote, uma flauta ou um violino…

Parte IV - a música portuguesa

O que acha sobre a situação actual da música portuguesa?

Ao longo dos primeiros anos como compositor, pude sê-lo, graças a algumas entidades e amigos que me pediam para escrever música para apresentarem, seja como performadores ou nos concertos / festivais que organizam. O duo Machina Mundi, Pedro Rodrigues (guitarra), Teresa Matias (flauta), a Sinfonietta de Lisboa e o coro Ricercare, a OrchestrUtopica, a Miso Music Portugal, são só alguns destes (muitos) amigos que me possibilitaram e me inspiraram a escrever. Devo-lhes muito, e, em particular, à MisoMusic por criar as condições que me permitiram aprender, evoluir e apresentar a minha música. Com isto quero dizer que há muita vontade de fazer música em Portugal. A educação melhora, a proliferação de músicos com qualidade é crescente, o potencial é enorme! Num país em que, para efeitos práticos, toda a cultura é algo de secundário, o esforço destes músicos e entidades chega a ser inglório, e, demasiadas vezes, não reconhecido. Este problema não é actual e não é só político ou financeiro, é também social e já vem de longe no tempo. A mentalidade deve mudar. Mas, mesmo assim, há sempre quem acredite…

Parte V - presente e futuro

Quais são os seus projectos decorrentes e futuros?

Neste momento encontro-me na fase de redacção da minha dissertação "Música mista e sistemas de relações dinâmicas"… é um título pomposo (e algo enganador) só para dizer que a música deve ser feita por nós… humanos. No futuro? tenho sempre música para escrever…

José Luís Ferreira, Outubro de 2013
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